quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A PRECE NOSSA DE CADA DIA



Por Warwick Mota


Vamos falar da prece. Orar a Deus é “pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em
comunicação com ele”[1]. Nesse sentido, demos levar em conta três aspectos: oramos para louvar, para pedir ou, finalmente, para agradecer.

A prece é um pilar, por meio do qual obtemos o concurso dos bons espíritos. Toda prece é um apelo da alma, em ligação instantânea com o plano espiritual, segundo os princípios de afinidade que estabelecemos para que isso aconteça.

A prece é o elo que unirá a vontade-apelo à vontade-aceitação, levando em conta o nosso mérito e a capacidade que temos de receber. Ou seja: a prece, qualquer que seja ela, é uma ação, provocando outra ação, que à primeira corresponde.

Essa oportunidade de estar em contato com os bons espíritos, que é a prece, faz com que o homem desenvolva a força moral necessária para vencer as dificuldades que impedem o seu crescimento espiritual, ou desenvolva a força de que necessita, para voltar ao caminho certo[2].

O hábito da prece permite a aproximação com a Espiritualidade, e isso traz, consigo, modificações aos cenários da existência, porque também traz mudanças nas posturas que assumimos na vida.

É certo que nem sempre a prece vai resolver os problemas do nosso cotidiano, mas, com certeza, por meio da oração, vamos haurir a energia que vai nos ajudar a superarmos as dificuldades.

No momento em que elevamos verdadeiramente o pensamento ao plano mais alto, conseguimos estabelecer a melhor sintonia. E, aprofundando a questão, vemos que: “(...) Na prece encontramos a produção avançada de elementos-força. Eles chegam da Providência em quantidade igual para todos os que se dêem ao trabalho divino da intercessão, mas cada Espírito tem uma capacidade diferente para receber”[3].

No pensamento está o fulcro principal da prece, posto que a mente elevada, a fé verdadeira, é vida em movimento. Assim sendo, ao orarmos, não há receita. Não há fórmula miraculosa para a prece.

Portanto, não precisamos fazer cópias de preces, nem tentar um palavreado inútil, cheio de um balbuciar de lábios, valorizando mais as palavras que os pensamentos...

Uma qualidade que deve ter a prece é que ela, para ter sentido, tem de ser inteligível. Não adianta, na hora da prece, elaborar-se um discurso, com muitas palavras rebuscadas, se esse mesmo discurso for vazio de sentimento, ou se as pessoas que estiverem em comunhão, naquele momento, não conseguirem entender o que se diz. Ou seja: também para a hora da prece, necessária a simplicidade, a pureza de coração.

Paulo de Tarso diz: “Se eu ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim”[4].

A prece dispensa a fraseologia inútil, devendo ser simples, inteligível, clara. Isso porque a própria estrutura verbal que se coloca, num diálogo com alguém, ao se expressar, afasta ou aproxima as pessoas. E, se eu me expresso de maneira rebuscada, as pessoas encontrarão mais dificuldade de se aproximarem de mim! Assim também com a prece. Como vou conseguir, no caso de uma prece feita em conjunto, que as pessoas se unam à rogativa, se elas não compreendem o que digo?!

O que temos aprendido com a Doutrina Espírita é que a prece não deve ser recitada, mas sentida. Que deve haver recolhimento, um retorno da mente a Deus.

E, no momento em que nós formos orar, não devemos nos expor em evidência, mas devemos orar em secreto. Lembrando, aqui, que secreto não é escondido: secreto apresenta um sentido de recolhimento, de respeito a Deus. É um estado de recolhimento íntimo.

Vejamos: quando conversamos com alguém, com quem nos identificamos, abrimos nosso coração.

Ora, em sendo assim, com Deus, ainda mais! Se estamos conversando com Deus, essa conversa tem de ser o mais simples possível, a fim de que haja uma aproximação, porque a prece, na verdade, deve ser uma conversa que entretemos com Deus.

Se estou conversando com Deus, é uma conversa entre Pai e filho. Haverá de ser uma conversa franca, onde quem ora deve também conhecer os próprios limites, deve aprender a atender e a obedecer à vontade do Pai Celestial.

Porque isso que Jesus questionou a postura daqueles que oravam em praça pública, aos altos brados, e orientou aos discípulos que não se comportassem como os que oravam em praça pública, para serem, assim, vistos...[5]

Não será pela multiplicidade de palavras que seremos atendidos, nem pela suposta elaboração da prece.

Pensemos em nossos filhos: a todos os momentos, eles nos pedem uma série de coisas, mas nem sempre vamos lhes dar o que pedem; daremos, sim, o que necessitam, pois nem sempre eles nos pedem o que realmente precisam. Guardando as devidas proporções, Deus também age assim conosco.

O que deve sempre haver é a certeza de que, ao orarmos, vamos obter forças para superar as dificuldades.

Aprendemos que de nada depende a prece e, portanto, podemos orar em qualquer parte, a qualquer hora, em todos os momentos.

Em instantes de desequilíbrio, a prece, então, é fundamental para nos reencontrarmos. Secretamente vamos nos aprofundar nos escaninhos da nossa alma, penetrar dentro de nós mesmos, para percebermos o que realmente vai ser bom para nós e, daí, pedirmos o que precisamos, para suplantarmos as dificuldades.

Orar é fundamental.

“(...) Toda prece elevada é manancial de magnetismo criador e vivificante e toda criatura que cultiva a oração, com o devido equilíbrio do sentimento, transforma-se, gradativamente, em foco irradiante de energia da Divindade.”[6]

Se a prece é elaborada no nosso coração com bom sentimento, com louvor a Deus, com respeito a Ele, com fé, certamente será uma prece vertical, que será levada à Espiritualidade superior, movida pela mola propulsora dos nossos bons sentimentos.

A oração é o mais eficiente antídoto contra as obsessões. Antídoto fantástico, que os espíritos permitem que utilizemos, pela força da vontade e pela força da fé.

Publicado na RIE, fev/2017

https://www.oclarim.org/oclarim/materias/5101/revista/2017/Fevereiro/a-prece-nossa-de-cada-dia.html



1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 83. ed.. Parte terceira – cap. II, questão 659, p. 319. Rio de Janeiro: FEB, 2002.

2. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 131. ed. – cap. XXVII – item 11, p. 315. Brasília: FEB, 2013.

3. XAVIER, Francisco Cândido. Os Mensageiros. Pelo Espírito André Luiz. 45. ed. p. 156. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

4. I Coríntios, 14:11

5. Mateus, 6:5

6. XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz. Pelo Espírito André Luiz. 43. ed. p 84. Rio de Janeiro: FEB, 2011

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

MINORANDO AS PROVAS ALHEIAS

Por Warwick Mota

A pergunta respondida pelo Espírito Bernardino, no Evangelho Segundo o Espiritismo, é sempre inquietante: “deve-se alguém por termo às provas do seu próximo quando o possa, ou deve, para respeitar os desígnios de Deus, deixar que sigam seu curso?” (1).

À luz da sabedoria, a questão que se coloca é: podemos dar fim às provas por que passa nosso próximo?...

Mais do que poder ou não poder, devemos?!

Essa pergunta, se bem pensada, remete-nos a uma série de largas considerações.

O sofrimento nosso - tanto quanto o alheio - localiza-se, na Terra, no campo das enfermidades, das dificuldades afetivas, dos empeços materiais de toda ordem, tudo fazendo parte do processo de evolução do homem no planeta.

Em primeiro lugar, impende saber que haveremos de viver sob o jugo das aflições, é fato, pois que a Terra nada além é do que pequeno planeta destinado a provas e a expiações.

Toda expiação também estará nos provando, conquanto nem toda provação, aquilo que o Espírito requisita para si, traz, em seu bojo, expiação de alguma espécie. Mas, em ambas as situações, ou nas provas, ou nas expiações, sempre haverá as aflições, porque, no presente estágio espiritual em que nos encontramos, desafios é o de que necessitamos mesmo, para nos melhorarmos.

A dor acontece em todas as famílias e não espera decreto para acontecer.

Não está em dada classe social, nem faz acepção de pessoas.

Todos, de alguma forma, vivenciam-na.

Nesse sentido, consola-nos saber que, quando mais evoluídos, não viveremos dessa forma tão sofrida, porquanto aquele que mais se aproxima da perfeição não necessita expiar, nem precisará ser constantemente provado...

Acerca da questão, se devemos ou não minorar o sofrimento de outrem, o que precisamos entender é que a reencarnação não é casuística para se viger a Lei de Talião, a ultrapassada aplicação do “olho por olho; dente por dente”.

Muito ao contrário: reencarnação é oportunidade para renovação espiritual, embora alguns desavisados possam interpretar mal o ensinamento, explicitado pela Doutrina Espírita, de que há colheita afim ao que se planta, e pensar que “se alguém sofre porque deve, então deve sofrer”...

Mero sofisma que precisa ser combatido!...

Nós não temos o direito, nem jamais o teríamos, de querer estabelecer a Justiça Divina, segundo o nosso conceito amblíope de justiça.

Grande erro!

Não nos cabe, em absoluto, fazer juízo de valor com relação à Justiça Divina.

Também, sob nenhuma hipótese, temos o direito de aprofundar o dedo na ferida do próximo, para agravarmos-lhe as dificuldades.

Esse, o pior dos mundos: chegar-se ao cúmulo de se imiscuir na vida da outra pessoa, para dificultar-lhe a marcha.

Antes de tudo, pensemos na Lei Áurea: façamos, aos outros, aquilo que quereríamos nos fosse feito, conforme nos ensinou Jesus.

Colocando o aprendizado em primeiro plano: os erros que perpetramos no passado, e nos quais ainda incorremos muitas vezes, também haverão de nos cobrar a cota de dor em nossas vidas, mas, nem por isso, abriremos mão de quem nos ajude, nem por isso, por termos resvalado em equívocos passadiços, deixaremos de pedir socorro e refrigério para a nossa alma.

Nisso, não há incongruência de espécie alguma.

Pensemos que o sofrimento por que passa um nosso irmão não tem somente o caráter de adequá-lo às leis naturais da vida, mas deve servir também para nos sensibilizar a todos acerca das dores do nosso próximo, incentivando-nos à busca do que é possível, para minorar esse sofrimento.

Não fosse assim, onde exercitaríamos a fraternidade?

Se nos situarmos na escusa de que o sofrimento pertence a cada um e deve seguir o seu curso, na verdade nada mais estamos do que nos entrincheirando em nosso próprio egoísmo, quando Jesus veio nos ensinar exatamente o oposto, veio nos ensinar a “darmos também a capa, se nos solicitarem a túnica” (2).

Sempre que possível, devemos intervir, sim, para minorar a dor do outro, aprendendo a ajudar sem humilhar.

Esse, também grande aprendizado.

E, o maior: ajudar, antes de a pessoa pedir ajuda, com sutileza, sem ferir, entendendo que a dor do outro, assim como a nossa, é sempre justa, mas, nem por isso, estamos desobrigados de sermos um Cirineu na estrada, aliviando, por pouco que seja, o peso da cruz de quem a carrega.

Talvez aquilo que negamos hoje, ao irmão que tanto necessita, é o que nos faltará amanhã, quando precisarmos também, por nossa vez, curarmos as nossas feridas.
Não fosse assim e admitiríamos por natural a selvageria de vermos a catástrofe desabar à nossa volta, estando nós nos aquietando de braços cruzados, aguardando um desfecho fatídico.

Não é isso que nos ensina a Boa Nova.

Ajudemo-nos em nossas respectivas provações.

Amparemo-nos mutuamente.

Aproveitemos todas as oportunidades, que a vida nos trouxer, de minorar o sofrimento alheio.

Especialmente os espíritas devem compreender a extensão infinita da bondade de Deus, pregando resignação e paciência, mas atuando com fé e bom senso.
Esse é o exercício da fraternidade.

A vivência do amor, conforme Jesus no-lo ensinou, dá-nos ensejo a que exercitemos nossas virtudes, novos valores.

É uma bênção viver servindo, porque esse é o Espiritismo prático, a essência da Doutrina Espírita posta em prática!

E, não duvidemos: nossos irmãos não espíritas, ao nos olharem, veem, em nós, o que é, verdadeiramente, o Espiritismo praticado...

Saiamos um pouco mais de nós, na exemplificação do amor do Cristo.

Talvez a fome maior que haja hoje, na Terra, não seja a de alimento, mas a fome de amor.

Agradeçamos ao Mestre Jesus por seu eterno exemplo de fraternidade e de amor incondicional, tentando, nós mesmos, por nossa vez, depositar alguma flor no campo que margeia a estrada dos outros.

Certamente essas mesmas flores depositadas haverão de, um dia, margear a nossa estrada de conquistas espirituais, adquiridas, uma a uma, por meio de nossas atitudes no bem.

Publicado no Reformador jan/2017- http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/

Referências:
1) KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131ª. ed., Brasília: FEB, 2013. Capítulo V, item 27. Bem aventurados os aflitos, p. 100.
2) Mateus, 5:40

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

ANTES QUE VENHA O ARRASTÃO

Por Warwick Mota


A edição do Reformador, de junho de 2004, trouxe esse sugestivo título, de autoria de Richard Simonetti (1).

O articulista, no órgão de divulgação da FEB, fez alusão à pescaria com o uso de redes. Nessa forma de pescaria, após jogarem a rede ao mar, em determinado espaço de tempo, os pescadores arrastam-na até a praia, para, dali, retirarem os peixes destinados à venda, à alimentação ou à volta ao mar, por inadequados.

O levante da tarrafa à praia para a seleção dos peixes é chamado de arrastão.  

E, no entanto, pelas palavras de Jesus, temos aprendido que “o reino dos céus é semelhante a uma rende lançada ao mar...” (2).

Quando um pescador lança sua rede ao mar, da volta ele aguarda todo tipo de peixe...

Também o projeto divino, executado pela Espiritualidade, é para toda criatura que habita o universo.

Da mesma forma, na Terra, o ensino de Jesus veio para todos os seres humanos, para todos os Espíritos, encarnados ou não, ocupantes de todas as escalas, pedagogicamente organizadas pelo Codificador, em O Livro dos Espíritos (3).

Observemos que, no caso da pescaria, como atividade humana, antes do arrastão, há um período temporal, para que os peixes entrem nas malhas, que lhe são proporcionais aos portes. Quando a rede está pronta, puxam-na até a praia.

Conosco ocorre também o mesmo...

Espíritos em processo de desenvolvimento, em alguns momentos de nossa trajetória, todos seremos convidados à praia da vida, para a apuração de nosso próprio desenvolvimento.

O tempo que o pescador aguarda, para arrastar sua rede até a praia, pode ser comparado ao tempo concedido à população de cada orbe, para que se ajuste ao desenvolvimento necessário ao ascender da vida.

Dado o tempo, o pescador arrasta a tarrafa.

Passado certo tempo, contado aos milênios, um planeta também precisa ascender na escala dos mundos. Nesse momento, então, nas malhas da própria consciência, cada ser humano responde, na praia da própria existência, por si mesmo e por sua adequação ou não para estar no novo estágio que advirá, ao planeta onde se encontra.

Vejamos que Jesus fez suas comparações em termos simples, para que todos o entendessem.

A separação do joio e do trigo é uma referência clara ao tempo de transição planetária. Crescidos lado a lado, dois homens assim estarão, até que, esgotado o tempo possível a essa convivência, sofrível para um, talvez desperdiçada pelo outro, então eles serão separados pelas moradas planetárias, porque, se o planeta dá um salto em termos de moralidade, é porque seus habitantes estão espelhando isso.

E aquele habitante que não se coaduna com essa realidade, a nova casa planetária certamente deverá ser encaminhado.

Fato é que, nos dias de hoje, muitos de nós apresentamos elevado nível técnico, mas não temos o mesmo nível moral.

Então este é o momento de buscarmos valores morais para o nosso Espírito, porque temos andado desatentos. Absolutamente desatentos.

Dessa forma, antes que venha o arrastão para a Terra, façamos um paralelo, um exercício, entre os ensinamentos de Jesus, que devem nos empolgar, e nossa verdadeira prática!

É preciso aferir se, realmente, temos aprendido o que temos ouvido.

De nada adianta muito sabermos se, moralmente, não saímos do lugar.

O momento de transição planetária é certamente o momento de a Espiritualidade olhar para muitos de nós e perguntar: “Como classificar o aluno que estuda indefinidamente, sem jamais aprender?!”

Não podemos ser crianças espirituais eternas!

A nós, espíritas, em especial, não nos é dado alegar desconhecimento de verdade espiritual alguma, porquanto os ensinamentos nos são apresentados a todo instante. Precisamos viver em conformidade com o que apregoamos, seja no lar, no ambiente profissional, no próprio templo espírita.

Não queiramos que, acerca de nós, em especial, nesses momentos de transição, a Espiritualidade tenha de se perguntar: “Como classificar o homem que prega, sem jamais experimentar?!...”

Se jamais experimentamos o que dizemos, seja em favor de nós mesmos, seja em benefício do próximo, na assistência social, nas esferas da caridade, na via mediúnica, como seremos classificados, na separação do trigo bom e do joio ruim?!

Este é o momento de colocarmos em prática, de maneira estreita, tudo o que já temos aprendido.

Nem precisamos mais falar que este é o momento definitivo da opção pela vida reta, iluminada pelas oportunidades de estudo e de trabalho.

Antes que venha o arrastão na Terra, aprimoremos nossa asa moral, para não termos de retornar a orbes primitivos, de onde já saímos um dia.

Antes que seja passada a rede planetária, que já acontece num processo natural, sem data definida, preparemo-nos para estarmos em bons cestos, como o trigo bom, jamais em cestos menos felizes ainda, com maiores dificuldades do que aquelas que todos já temos enfrentado.

Não há dia marcado para a separação dos peixes arrastados à praia. Disso não precisamos ter medo algum, mas sabemos que o momento é de oportunidade para mudarmos hábitos menos felizes.

Especialmente nós, os espíritas, temos de enfrentar nossa obrigação de burilar nosso aspecto moral, de reconhecermos nossos defeitos, de trabalharmos nossos erros e buscarmos, em Jesus, nossas reflexões e nossa autoeducação.

Isso, antes que venha o arrastão.

Publicado na RIE/nov-2016
Referências:
1)    Reformador. Antes que venha o arrastão. Artigo de Richard Simonetti. Junho 2004, p. 216 (encadernação). Disponível em http://www.sistemas.febnet.org.br/acervo/revistas/2004/WebSearch/page.php?pagina=201. Acesso em 17 de abril de 2016.
2)    Mateus, 13:47.
3)    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 83ª. ed., 2002, questão 100.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

TRABALHANDO HABITOS

Por Warwick Mota


De uma mensagem (1), psicografada por Francisco Cândido Xavier, sob a qual o Espírito autor não se identificou, retiremos pequeno trecho:
A Mente é meu Lar. O Coração é meu Templo. (...)

O Amor é minha Lei. (...)

A Experiência é minha Escola. (...).

A Perfeição é meu Destino.

Desse belo poema, se empreendermos minucioso exame, poderemos dimensionar a questão da evolução, em seus diversos aspectos.
Analisando essa mensagem, observamos que hábito e destino interagem profundamente, pois é na rotina estabelecida que traçamos o nosso futuro.
O hábito predispõe aos costumes, que, sendo salubres ou insalubres, anunciam o nosso destino.
Triste é que, em nosso atual estágio evolutivo, nossos hábitos têm sido, a mais das vezes, insalubres.
Mas, no princípio não era assim...
Como sabemos, fomos criados simples, ignorantes, sem qualquer saber (2).
Em nossa simplicidade inicial, não apresentávamos maus hábitos, pois nosso primeiro estágio era em contato com o mundo natural.
É no avançar como Espíritos que vamos fazendo nossas escolhas.
E nosso livre arbítrio vai sempre nos permitir as boas ou más escolhas.
Vai nos possibilitar tomar as boas ou más atitudes. Assumir, diante da vida, bons ou maus hábitos.
Lamentavelmente, vamos adicionando, à vontade, a paixão, que é o excesso em tudo.
É a paixão que nos traz o sentimento de posse, que avança até a nossa relação com as pessoas, para além de coisas.
É esse excesso no sentir que nos induz ao apego a tudo.
Aí entendemos que o desejo de possuir, quando descontrolado, pode nos levar à insanidade, a ponto de deixarmos de lado nosso crescimento moral, somente para buscarmos, nos bens materiais, a loucura da satisfação de desejos egoísticos.
O excesso, que colocamos na vontade, traduz-se em apego, revelando a faceta humana mais cruel: nossa postura egocêntrica e egoísta de viver.
É certo: dentre as dificuldades que encontramos, quando encarnados, o egoísmo é o defeito mais difícil de ser combatido, em função de que esse sentimento, tão atrasado, imanta o Espírito diretamente à matéria.
É o egoísmo uma doença moral que o homem carrega consigo há milênios.
Demonstração dessa ênfase à matéria, em detrimento do que é espiritual, aparece, muito claramente, quando Pilatos pergunta, a Jesus, se ele era rei... (3).
Diante do Cristo, a alma mais elevada que já pisou sobre a Terra, Pilatos simplesmente se apega a questões materiais, temporais...
- Tu és rei?
Ele pergunta.
E o Mestre volta-se a explicar a ele que o reino dele não é deste mundo...
A questão é que, na verdade, o que é espiritual, em nossos hábitos arragaidos ao que é transitório, temos deixado de lado.
E, sempre, vimos nos ligando à matéria, colocando-a como elemento substancial, esquecendo-nos do que é verdadeiramente essencial à vida.
Maus hábitos somente serão verdadeiramente combatidos com a ferramenta chamada reforma íntima, reforma interior.
Somente conseguiremos chegar bem à vida futura, quando conseguirmos usar bem essa ferramenta.
Temos vindo, até agora, como embarcações frouxas, ao gosto da correnteza dos hábitos.
Vimos seguindo, em encarnações sucessivas, num reiterado processo de viciação.
De fato: são vários hábitos, manias, vícios e apegos que nos prendem a situações, coisas ou pessoas e nos impedem de nos avançarmos em termos evolutivos. Por exemplo: o hábito de falar demais, num processo de interlocução, onde o outro não consegue falar;
ou o vício de consumir excessivamente, para compensar outras dificuldades; ou a mania de se lamentar de tudo e de todos, vitimizando-se, para chamar a atenção dos outros.
Nosso atraso evolutivo está patente também no hábito de se achar sempre certo. Ou no péssimo hábito de querer dar sempre a última palavra.
Ou, ainda, na mania de grandeza de achar que os outros têm sempre de vir até nós, quando Jesus não nos ensinou assim...
Todos esses problemas compõem um arcabouço de dificuldades morais traduzidas em hábitos perniciosos, que precisam ser combatidos, mesmo quando se manifestam em clichês arrogantes, com os quais nos acostumamos – como o que diz “eu não levo desaforo para casa” - tanto quanto se manifestam nas próprias atitudes intoleráveis, como a do tirano doméstico, detestado entre os seus.
Estão nossos maus hábitos arraigados apresentando-se também no trânsito, na via pública, quando achamos que só nós temos compromissos importantes, e não deixamos o outro passar, nem entrar na nossa frente, e reclamamos quando temos de parar, seja no sinal, seja para o pedestre, seja num cruzamento.
Precisamos ver que os maus hábitos, ao final, sempre nos colocam em situações de sofrimento, seja conosco mesmos, porque nos percebemos estagnados, quando poderíamos estar avançando, seja na relação com os demais, porque acabamos ferindo ou magoando muitas vezes até mesmo quem mais amamos.
Para combatermos os vícios que ainda carregamos, precisamos de coragem.
Um bom começo é reconhecermos o que ainda vive em nós e que sentimos.
É arrogância, esse sentimento que se aloja em nosso íntimo?
É egoísmo, o que estamos sentindo?
Isso que nos invade neste instante, seria prepotência?
Talvez ciúme?
Esse tipo de autoconhecimento, quando sinceramente buscado, vai nos ajudar a trabalhar nossas emoções, nossos sentimentos malbaratados, nossos hábitos e costumes maus.
Estamos mascarando quais sentimentos reais, por trás das nossas atitudes?
Para tomarmos a paz que Jesus nos deixa, precisamos nos conhecer!...
Para recebermos o legado que Jesus nos oferece, é preciso estarmos num caminho de transformação.
Nossas dificuldades exteriorizam-se através dos hábitos ruins. Isso é inegável.
Estão nas ironias, no senso de superioridade, na não responsabilização diante dos erros, no fanatismo.
Só conseguiremos superar tudo isso, se buscarmos o exemplo do Cristo e nos decidirmos a segui-lo.
Só assim conseguiremos iniciar relações simbióticas, em patamares verdadeiros, porque as mudanças surgem de dentro para fora, não o contrário. Mesmo que ocorram lentamente.
É de pensarmos: já que o outro é meu espelho, se eu me tornar passível de ter bons hábitos e atitudes, receberei isso do meu igual!...
Um bom início é deixarmos florir, em nós, o amor.
E, se esse processo for vagaroso, não importa: “A Perfeição é meu Destino” (4).

Publicado no Reformador nov/2016 - http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/

Referências:

1)    XAVIER, Francisco Cândido, citado por ABRANCHES, Carlos Augusto. (Por: O Espírito). Vozes do Espírito. Rio de Janeiro: FEB, 1997, 2ª. ed. p. 23.

2)    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1991, 71ª. ed., p. 95.

3)    João, 18:37.

4)    XAVIER, Francisco Cândido, citado por ABRANCHES, Carlos Augusto. (Por: O Espírito). Vozes do Espírito. Rio de Janeiro: FEB, 1997, 2ª. ed. p. 23.

ECOLOGIA E ESPIRITISMO

Por Warwick Mota    Vivenciamos na atualidade o limiar de uma grande transição: eventos sociais e físicos eclodem em todo o planeta demonstr...