terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

A IMPORTÂNCIA DE SABER DIZER NÃO


Por: Warwick Mota

Vivemos uma época de vertiginoso avanço tecnológico, cada vez mais a tecnologia ganha espaço e importância em nossas vidas, porém, traz a reboque um novo “universo cultural”, onde a juventude é envolvida pela cultura do supérfluo, pelo isolamento social e pela perda da realidade.

Frente a esse cenário de inovações disruptivas e do glamour dos aparelhos digitais, nos deparamos com a angustiosa preocupação de oferecermos aos nossos filhos uma formação intelectual robusta, porém, inconscientemente, muitas vezes relegamos a um plano menor, a formação moral, o fortalecimento dos valores e dos princípios que, como pais, devemos ministrar para as nossas crianças.

Sabemos que a vida é um sucessão de acontecimentos, de encontros e desencontros, e que inexoravelmente as atitudes de hoje terão repercussão no amanhã, visto que todas as nossas ações estão submetidas às leis de Deus, mesmo aquelas que aparentemente nos pareçam insignificantes, daí a importância dos valores espirituais e morais que repassamos aos nossos filhos, enfatizando sempre os bons exemplos e correções oportunas que devemos empreender.

A literatura espírita é rica em informações que orientam os pais na educação dos filhos, especialmente as obras básicas, acerca disso, Allan Kardec no capítulo 14, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, nas Instruções dos Espíritos, oferece-nos a seguinte assertiva:

...compreendei que, quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do espaço para progredir; inteirai-vos dos vossos deveres e ponde todo vosso amor em aproximar de Deus essa alma; tal a missão que vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se fielmente a cumprirdes. Os vossos cuidados e a educação que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu bem-estar futuro. Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará Deus: Que fizestes do filho confiado à vossa guarda (1). 

Na obra Adolescência e vida, Joanna de Ângelis alerta-nos que:

Incontestavelmente, o lar é o melhor educandário, o mais eficiente, porque as lições aí ministradas são vivas e impressionáveis, carregadas de emoção e força. A família, por isso mesmo, é um conjunto de seres que se unem pela consanguinidade para um empreendimento superior, no qual são investidos valores inestimáveis que se conjugam em prol dos resultados felizes que devem ser seguidos ao largo dos anos, graças ao relacionamento entre pais e filhos, irmãos e parentes (2).

É assim que reencontramos, na Terra, em nossas famílias, Espíritos afins, mas também recebemos aqueles outros aos quais muito devemos, porque, em um passado mais ou menos distante, ajudamos a corromper.

Os nossos filhos, em muitos casos são Espíritos com os quais já vivenciamos uma série de experiências, e, agora, retornam do espaço, porque Deus os envia, para compartilhar conosco esta existência e serem auxiliadas por nós, em nova caminhada.

Na condição de pais, é necessário que coloquemos todo o amor nessa missão, sem nos esquecermos de que cabe a nós aproximarmos as crianças de Deus, inclusive atendendo ao inolvidável convite de Jesus: “deixai vir a mim as criancinhas, e não as impeçais” (3).

Quando o Mestre assim nos fala, diz-nos em profundidade, ou seja: devemos possibilitar que nossos filhos conheçam, sim, a Jesus, que d’Ele se aproximem ainda na infância, que tenham contato com os valores morais e que desenvolvam virtudes desde logo, especialmente nos primeiros sete anos de vida, quando o ciclo reencarnatório está se completando.

Ao recebermos em nossos braços um filho que Deus nos confia, temos ali a preciosa oportunidade de auxiliarmos no processo de modificação daquela alma encarnada, e isso é um grande e valioso compromisso, pois receber um Espírito na condição de filho não pode ser algo trivial, além disso, temos a missão de auxiliá-lo a se conduzir na Terra, temos sobretudo a obrigação de educar.

Esse é o ponto: educar é também colocar limites. Nossa responsabilidade diante dos nossos filhos diz-nos que temos de assumir a disciplina para com eles, amando-os, mas ensinando-os sempre.

É natural das crianças, ao redescobrirem o mundo, tentarem impor os seus próprios desejos, testando os nossos limites do que é e do que não permitido, é como se pedissem que os limitemos com amor, nessas situações eles esperam que demonstremos segurança, por isso precisamos compreender que amar é também impor limites. Sem laivos de culpa, sem enxergamos nisso um problema: nossos filhos precisam que saibamos a hora de dizer não.

Vejamos uma conversa possível:

- Pai, quero ir a tal lugar.
- Não pode.
-Mas a fulana vai...

Nessas situações, o melhor é sempre o diálogo franco, aberto, a fundamentação da negativa inicial. É fato que, muitas vezes, como pais, não sabemos usar bem as palavras, ou não estamos preparados, verdadeiramente, para dizer não. Mas precisamos, embora não seja fácil, aprender.

Se o “não” tem por fundamento algo real, não se tratando de mera evasiva, nossos filhos, embora não pareça, entenderão a recusa, e, inclusive, no futuro, nos agradecerão, porque todo ser pode falir quando num corpo de carne, porque ainda estamos num mundo expiatório, mas, se bem orientado, quando possui alicerces sólidos morais, quando possui valores religiosos introjetados, logrará reerguer-se com menos sofrimento.

O “não”, quando o dizemos, parece doer mais em nós. Mas também alivia saber que, em seu íntimo, as crianças louvam a justiça paterna, porque elas precisam enxergar, na relação familiar, o seu lugar de filho, e compreender quem faz o quê. Essa compreensão virá por meio do diálogo, inclusive para que elas entendam como as situações foram, pelos pais, equacionadas. Sempre dará muito trabalho ao educador, mas a conversa, o tempo dedicado a ouvir as opiniões que as crianças trazem, a atenção são fundamentais nesse processo. Também não basta simplesmente dizer não. Temos de explicar o porquê e as consequências que decorrerão daquele ato, se este for praticado.

Também não é razoável ficar monitorando situações para dizer não, como se fôssemos fiscais das crianças, postados a frente delas censurando ferrenhamente suas atitudes, palavras e emoções. O relacionamento com os filhos deve sempre ser pautado na confiança, de forma que essa relação, transmita segurança para o desenvolvimento psicoafetivo da criança.

Educamos nossos filhos porque os amamos, e por isso mesmo, temos a obrigação de orienta-los e faze-los compreender que nem sempre os seus desejos podem ser realizados, portanto, o “não”, representa não apenas a ausência de concessão a um pedido inoportuno, mas também pode se revestir de reprovação à conduta inadequada.

Não devemos criticar os nossos filhos, nem pessoa alguma, mas a conduta reprovável, especialmente em nossas crianças, merece a crítica zelosa, firme, a fim de que eles tenham segurança acerca dos próprios atos. Essa, a diferença: jamais criticaremos a pessoa, mas vamos burilar os comportamentos, porque as palavras educam, embora não possamos nos esquecer, como pais, de nosso próprio compromisso de reforma íntima, pois o que modifica profundamente as pessoas são mesmo os exemplos de vida: de nada adiantará dizermos ao nosso filho que não fume, que o fumo faz mal, se fumamos...

Na questão 208, de O livro dos espíritos, vemos as Entidades venerandas responderem à pergunta formulada pelo Codificador (4) de maneira profunda:

- Os Espíritos dos pais exercem alguma influência sobre o dos filhos, após o nascimento destes?

“Muito grande. Conforme já dissemos, os Espíritos devem contribuir para o progresso uns dos outros. Pois bem, os Espíritos dos pais têm por missão desenvolver os de seus filhos pela educação. Isto constitui para eles uma tarefa: se falharem, serão culpados”.

Esses limites aos nossos filhos, portanto, são necessários. É nossa responsabilidade, como pais, apresentá-los a eles. Dizendo “não”, adequadamente, aos nossos filhos, também os ensinaremos a, no futuro, quando for necessário, saberem dizer não, especialmente às aparentes facilidades da vida, as quais, muitas vezes, são convites disfarçados aos desvios de conduta, aos equívocos de comportamento.

Quando os nossos filhos entenderem as regras do lar, estarão aptos a entenderem as regras da vida em sociedade, sobretudo a respeitar o próximo, e compreender até onde vão os limites de suas ações e escolhas. Saibamos, portanto, dar limites aos nossos filhos. Saibamos a hora certa de dizer não.

Publicado no Reformador out/2018 - http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/

Referências:
1)      KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 121ª. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003, p. 240, cap. XIV.
2)      FRANCO, Divaldo (Pelo Espírito Joanna de Ângelis). Adolescência e vida. 15ª. ed. Salvador: Leal, 2014, p.31. O adolescente diante da família.
3)      MARCOS: 10, 13-16.
4)      KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 12ª. ed. francesa. Rio de Janeiro: FEB, 2007, p. 188, q.208.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

TEMPERAMENTOS E COMPORTAMENTOS



Por Warwick Mota

       Em O Evangelho segundo o Espiritismo, o Espírito Hahnemann faz-nos o seguinte alerta, bastante significativo, acerca do nosso comportamento na Terra: “O corpo não dá cólera àquele que não na tem, do mesmo modo que não dá os outros vícios” (1). Exatamente aquele que foi, em vida, considerado “o pai da Homeopatia”, Samuel Hahnemann retorna, como Espírito, para nos desvelar a submissão da matéria, na comparação com aquilo que é espiritual.
Ou seja: a Doutrina Espírita vem revelar que, no centro de todas as manifestações, está o Espírito.
No entanto, por suas persistentes fraquezas, por seu comportamento indômito, pelo temperamento indomado, o homem muitas vezes tenta, em vão, atribuir a culpa dos seus erros à matéria, buscando também, equivocadamente, adquirir a suposta remissão por meio do sofrimento físico, associando sofrimento físico a redenção.
Trata-se de ênfase dada à matéria de maneira equivocada, conquanto também possa ser traduzida em oportunidade para reflexão.
Imaginemos um indivíduo que tenha cometido um erro grave, como o adultério.
É permitido a esse ser humano atribuir a culpabilidade de seu erro à linhagem genética de onde proveio?
Logicamente que isso soa até pueril, pois não são os caracteres genéticos que induzem uma pessoa ao erro, mas sua condição moral. Nossos erros não provêm de dada condição orgânica, nem nosso temperamento.
Inclusive porque, de maneira positivada, o que às vezes pode ser geneticamente explicado nem sempre poderá ser moralmente aceito: a ninguém é dado alegar que tem um gênio difícil, simplesmente porque herdou essa condição infeliz dos genitores.
Em nosso processo educativo espiritual, o aspecto emocional vai sendo, pouco a pouco, modulado, na usina das relações sociais, nas oportunidades de intercâmbio, nas reencarnações, na troca do amor, na troca dos sentimentos.
Assim também é que o temperamento humano bilioso cede, a partir da caminhada evolutiva, dando lugar a pessoas compreensivas, fleumáticas e de índoles mais pacíficas.
Todo esse processo não acontece num átimo, do dia para a noite, é certo. Desenrola-se ao longo de várias reencarnações.
Partimos de reações estapafúrdias, eivadas de ira, ciúme, e de vários sentimentos exacerbados, animalizados, para a noção do dever corretamente cumprido e da conduta socialmente aceita.
O importante é reconhecermos as dificuldades das nossas emoções deseducadas, do temperamento difícil que apresentamos, para a convivência social, e aceitarmos que precisamos nos modificar.
O que não dá é para aceitarmos, como verdade, para nós, o que, curiosamente, ouve-se chamar da “síndrome da Gabriela”, a personagem que parece, na canção, não estar disposta a alterar suas atitudes: “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim...” (2).
O que também não é possível é buscar-se ocultar a dificuldade moral em presumível condição orgânica, falácia que, ao espírita, já não cabe, porquanto sabemos que o pensamento é o nosso motor atitudinal.
Somos guiados pelos nossos pensamentos, que devem ser educados a partir da nossa própria sanção moral amadurecida.
Pensamento educado impede-nos de exteriorizar atos e comportamentos errôneos, e, ainda mais, de nos consorciarmos, por questões de sintonia, com a espiritualidade menos feliz, o que sempre capitaliza maus pendores.
É a partir da educação dos nossos sentimentos e pensamentos que nos tornamos capazes de cercear os excessos, quer estes se traduzam no temperamento detestável, quer se traduzam nas atitudes cotidianas indesejáveis.
Não é a matéria que define nosso comportamento, mas, na verdade, são nossos vícios ou virtudes morais que determinam nossa conduta, no campo físico.
Viciamo-nos em atitudes violentas, em temperamentos coléricos que ainda nos remetem a nossa estrutura ancestral primitiva, mas essas atitudes intempestivas precisam ser domadas em nós, que já guardamos algum conhecimento espiritual, porque conhecimento também traz consigo a responsabilidade da mudança para melhor.
Se é para se afirmar que se herdou algo dos ancestrais, que se busque o que eles tiveram ou manifestaram de melhor: se tinham valores, se respeitavam a vida, herdemos essas características imaterias, intangíveis, mas substanciais para a evolução planetária.
Quando damos espaço para temperamentos virulentos, para comportamentos agressivos, para atitudes insanas, estamos dando mostras de que a noção de amor ao próximo, perfeitamente exemplificada por Jesus, ainda não está sedimentada em nosso coração, ou, talvez, sequer tenha chegado a ele.
A lição do Mestre é uma lição de paz.
Vejamos que até a atuação de Pedro, quando ele toma da espada e decepa a orelha do soldado, assim agindo para proteger o seu Mestre (3), Jesus corrige, explicando que não é assim que se deve agir na Terra.
Embora tão próximo a Jesus – Este todo amor, todo bondade, todo paz - ainda assim Pedro cometeu esse deslize, levado pelas circunstâncias que, quiçá, pareceram-lhe fora de controle.
Se com ele assim aconteceu, e quanto a nós?!
Vamos colocar a luz da responsabilidade, para nos auto-analisarmos e nos consertarmos, em primeiro lugar.
Libertos de nossos comportamentos antiéticos, amorais, cristalizados, avançaremos em sentimentos de paz, de alegria, inundando-nos, e aos que convivem conosco, de energias saudáveis.
Em dias difíceis, olhe para o lado e sorria, dê um sorriso, o riso quebra a propensão à atitude ruim, ao temperamento aguerrido, à tentativa de revolta, é bom e nada custa.
Aprendamos com as crianças: nada melhor que o sorriso de um filho, para minar, em nós, o cansaço, a mágoa, o mau temperamento.
Deixemo-nos contagiar pelas boas energias, extraindo, do contato social, a oportunidade de educarmos nossos sentimentos; temperarmos nosso temperamento; e modularmos, para melhor, nossas sensações, nossas ações, nossos sentimentos.
Com o tempo, conquistaremos a paz.

Publicado no em o Reformador - agosto 2017
Referências:
1)    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131ª. ed., Brasília: FEB, 2014, Capítulo IX, p. 140.
2)    Gabriela. Música de Dorival Caymmi. Disponível em https://www.letras.mus.br/dorival-caymmi/356571/. Acesso em 2016-20-12.
3)    Mateus, 26:52

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