sexta-feira, 3 de junho de 2016

CIÚME: ESSA INEGÁVEL DOENÇA DA ALMA

Por Warwick Mota
“Você já sentiu ciúme?...”

Diante dessa pergunta tão peculiar, forçoso é-nos reconhecer que, sim, todos nós, em algum momento das nossas vidas, já fomos tomados, em maior ou menor grau e intensidade, por esse sentimento, tão corrosivo quão doloroso: os ciúmes...

Emoção de caráter extremamente potente e explosiva, típica da condição de almas em pleno atraso evolutivo, o ciúme é externado de diversas maneiras. Em regra, apresenta-se na forma de extremado sentimento de posse, ou de forte desejo de exclusividade, na ilusória suposição de se manter uma pessoa ou algo junto a si.
Na verdade, o pior ciúme é mesmo o que tem por alvo outra pessoa, porque, invariavelmente, faz o outro sofrer...

Igualando pessoas a coisas, na suposição de se ter, delas, o domínio definitivo e irrevogável, o sentimento possessivo vem sempre acompanhado de fértil produção imaginativa, que potencializa as emoções animalizadas e aumenta o transtorno na personalidade do perfil ciumento.


Também invariavelmente, o espírito, encarnado ou não, perturbado pela sensação do ciúme, imagina cenas que jamais aconteceram; pensa em situações que nunca se concretizaram; e perturba-se com muito pouco, imaginando a iminente perda dos seus afetos...

...É muito sofrimento!

Em situações-limites, imerso nos relacionamentos, sem controle, sem travas morais, sem educação sentimental, o ciúme é o motor responsável pelo despertar de comportamentos compulsivos, que impulsionam o ciumento a elaborar estratégias para tentar controlar o que o parceiro ou parceira poderia fazer, chegando-se às raias de se buscar supor o que é que o outro, o alvo dos sentimentos desequilibrados, poderia estar pensando, imaginando, ou, quem sabe, sentindo...

Esse aterrador sentimento patológico é ainda estopim comum de recorrentes episódios de violência passional que ilustram o cotidiano coletivo, folhetins e jornais policialescos.

...Mas, o que está por trás desse comportamento obsessivo-compulsivo, que leva um ser humano ao delírio de achar que outro ser humano poderia lhe ser posse única e exclusiva na Terra?!
A resposta a esse devaneio de ainda muitas pessoas, materializado na real coisificação do outro, com o fim de ter-lhe a posse exclusiva, reside em nada além do que no atraso moral do espírito, como de resto também residem todas as outras doenças da alma.

Sempre sábio, é Kardec quem nos afirma que todos os vícios promanam do egoísmo e do orgulho. Com esse sentimento desvirtuado, o ciúme, também não poderia ser diferente: o desejo enceguecido de posse de outra pessoa nada mais é do que a exacerbação do egoísmo, gerando espécie de “síndrome de propriedade”, para com o semelhante, e aguardando a cura somente por meio da necessária reforma íntima, onde o suporte poderão ser tratamentos espirituais e psicoterápicos, além do estudo e da busca do autoconhecimento, para a ulterior autoeducação.

Ao contrário do que muitos podem pensar, a inquietante problemática do ciúme não se limita às ações que marcam os sufocantes conflitos vividos nas relações afetivas constituídas do plano físico. Esses conflitos obsessivo-compulsivos estendem-se ao plano extrafísico, potencializados por variáveis ocultas, como a ação mento-magnética dos obsessores, conforme relata André Luiz, em emblemático caso narrado na obra “Entre a Terra e o Céu” (1).
No referido romance, Odila, já desencarnada, atormenta a atual esposa do marido, Zulmira, sem lhe dar trégua. É que a falecida, magoada em seus afetos, não permitia, em hipótese alguma, que o esposo refizesse a vida ao lado de outra mulher...

“– Odila, o ciúme que não destruímos, enquanto dispomos da oportunidade de trabalhar no corpo denso, transforma-se em aflitiva fogueira a calcinar-nos o coração, depois da morte”.

Esse, o conselho do mentor à ciumenta.
 
Diretriz que valeria também à segunda esposa do viúvo, a qual, desejando tanto a posse exclusiva do seu amado, planeja a morte de um dos filhos, a ela ligado na condição de enteado, com o devaneio tresloucado de obter ascensão única no coração disputado.
 
No drama torturado de Odila e Zulmira pressentimos o sofrimento de todos os que buscam reinar absolutos no coração de qualquer outra pessoa, como se isso fosse humanamente possível, tendo em vista que a destinação do ser humano é sempre amar ao seu próximo, para crescer em amor puro e desinteressado, até amar a humanidade toda, como o Cristo ensinou.

De fato, acerca dessa problemática, Emmanuel assevera-nos: “o ciúme (...) é um indício de atraso moral ou de estacionamento no egoísmo, dolorosa situação que o homem somente vencerá a golpes de muito esforço, na oração e na vigilância...” (2).


Para quem sente essa dor no coração, o ciúme que corrói e abate, resta saber que os ensinos espíritas deixam patente que depende de nós ampliarmos ou suavizarmos o amargor de nossas provas, pois se, por vezes, somos nós mesmos os causadores dos nossos sofrimentos materiais, por uma decorrência natural, somos nós também os causadores dos nossos sofrimentos morais.


Em nosso socorro, leciona o insigne Codificador, ao afirmar que esse temor afetivo é “o ciúme aliado à mediocridade”, porquanto “se se colocar fora do círculo acanhado da vida material, se elevar seus pensamentos para o infinito, que é seu destino, mesquinhas e pueris lhe parecerão as vicissitudes da Humanidade” (3).

Resta-nos afirmar que o nosso caminhar pela existência, seja a sós, em família, em sociedade, ou numa relação a dois, deve sempre se pautar pelos sentimentos da verdadeira fraternidade, que se materializa pelo respeito mútuo e, sobretudo, pelo exercício do amor pleno, desvinculado das sutis armadilhas que o egoísmo espalha pelo caminho.

Necessário iluminar as nossas mentes pela prática da oração, fortalecendo a realização do esforço pessoal, com o que estaremos, consequentemente, desenvolvendo os mecanismos fundamentais para a eliminação do ciúme, “deplorável cegueira humana” (4), de nossas vidas.

Um dia, enfim, livre desses sentimentos infelizes que nos atrasam a caminhada evolutiva, aprenderemos que quem nos ama verdadeiramente haverá de seguir nos amando, onde quer que esteja. E, espíritos imortais que somos, veremos que aqueles que se amam, quando momentaneamente separados por razões reencarnatórias que, a mais das vezes, desconhecem, sempre haverão de se reencontrar, e, em condições outras, mais favoráveis, terão a permissão divina para, então, seguirem juntos seus caminhos, lado a lado, sem jamais se separarem, se essa for a vontade livre de ambos os corações.

Publicado no Reformador jun/2016 - http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/

 

Referências:
1-    XAVIER, Francisco Cândido (pelo Espírito André Luiz). Entre a Terra e o Céu. 27ª. ed. FEB. Brasília, 2013, p. 156.
2-    XAVIER, Francisco Cândido (pelo Espírito Emmanuel). O Consolador. 29ª. ed. FEB. Brasília, 2013, p. 122.
3-    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 933. FEB, 83ª. ed, Rio de Janeiro, 2002.
4-    XAVIER, Francisco Cândido (por Espíritos diversos). O Espírito da Verdade. 18ª. ed. FEB. Brasília, 2013, p. 115.

RECOMENDAÇÃO DETESTADA

Por Warwick Mota

O que seria, na nossa vida, uma recomendação rejeitada?
 
Na obra Cartas e Crônicas, o Espírito Irmão X traz a história de Custódio (1), um amigo que ele reencontra no plano espiritual, o qual, embora nascido na Terra em lar espírita e ter recebido, ao longo da existência, reiterados chamados ao trabalho edificante e à reforma íntima, apresenta-se de volta à pátria espiritual na base do “ganhou, mas não leva”, ou seja: muito preparo, excelente bagagem doutrinária, mas nenhuma ação efetiva no Bem.
Todas as recomendações que Custódio, em vida, recebera, foram-lhe inúteis, porque sumariamente rejeitadas...
Nesta crônica, maravilhosa, evidenciam-se as recomendações que a maioria de nós ainda detesta...
 
Na Terra, ainda é muito comum buscarmos o conforto, em vez de quaisquer dificuldades; querermos que Deus resolva tudo o que consideramos injustiças para conosco e reveja nossa situação...
Pensemos no quanto de responsabilidade temos sobre o cenário das nossas vidas, não culpando Deus, os espíritos ou quem quer que seja pela desordem instalada, seja esta física ou espiritual.
O Evangelho nos traz, claramente, a questão das causas anteriores e das causas atuais das aflições (2).
Então o homem é o artífice de seu próprio destino e receberá de volta a reação do que praticar, nesta ou em existências futuras.
Dificuldades financeiras são exemplos clássicos de perturbações que, muitas vezes, nós mesmos nos infligimos.
Em grave crise material, a pessoa culpa o destino: a situação é fruto de suposta “má estrela” ou terá sido pura imprevidência?!
É de se observar...
Há também, as dificuldades no campo da saúde.
Elas tiveram origem no passado encarnatório do indivíduo?
Talvez sim, talvez não...
Pois há que se verificar se houve abusos.
Os vícios morais também nos adoecem.
Por isso vem a recomendação, que muitas vezes rejeitamos, de nos esforçarmos para sermos melhores, em nosso próprio benefício.
A recomendação é difícil, mas tem de ser seguida.
Significa lutarmos contra o que de ruim ainda existe em nós: o ciúme, a ausência do perdão, a maledicência, a propensão às traições e ao mal de toda ordem. Tudo o que só trará conseqüências funestas a nós mesmos, senão nesta, em futuras existências.
Precisamos combater tanto ainda em nós: aquela mania de falar demais, sem deixar os outros falarem; o péssimo hábito de acharmos que só nós estamos certos, taxando os outros de errados; a megalomania de nos considerarmos superiores; o costume de mentir, para se justificar; o vício de querer dominar...
Se formos enumerar, a lista é sem conta.
Tem também a mania de iludir; o gosto por se vitimizar, fazendo do sofrimento uma muleta, vida afora; o hábito contínuo de se lamentar, comprazendo-se com o sofrimento...
São falhas morais, que os espíritos nos recomendam combater.
E não há mais como rejeitarmos essas recomendações, se quisermos ser o homem novo que a Doutrina Espírita convida-nos a ser.
O Espírito Meimei conta-nos a lenda dos que três jovens que pediram ardentemente que Jesus lhes aparecesse (3).
Quando o Mestre veio, um deles pediu ao Senhor que lhe concedesse beleza. O outro pediu riqueza. O terceiro, o que fosse justo...
Concedido os pedidos, o terceiro ganhou uma pedra.
E os outros fizeram pilhéria dele.
Afastaram-se.
Anos passados, no entanto, quando a beleza tinha se acabado e a riqueza também, os dois rapazes, empobrecidos e tristes, foram então socorridos por aquele simples terceiro, que houvera recebido apenas a  pedra que Jesus lhe enviara.
Foi aí que os dois vieram a saber que o terceiro rapaz tornara-se muito rico, pois, lapidando a pedra recebida, descobrira, nela, grande tesouro oculto...
A alegoria serve a nós mesmos: quantas vezes nos preocupamos apenas em crescer no campo material, esquecendo-nos da recomendação de Jesus, de que acumulemos tesouros que a traça não corrói?
É a recomendação acertada - porém, por nós, em tantas encarnações, rejeitada.
Quantas vezes não cometemos abusos de toda ordem, conosco mesmos, pelo excesso de trabalho, no afã do ter?
Não é isso que Jesus nos recomenda.
A recomendação verdadeira é de perseverança na vida, de constância nos propósitos, de força nas dificuldades.
Nossa existência também pode ser vista como uma rocha a ser burilada, a partir das dificuldades enfrentadas.
E são dificuldades das mais variadas, pois se relacionam à condição do planeta em que habitamos, que é um campo de provas e de expiações...
Em Transição Planetária, o Espírito Bittencourt Sampaio (4) também nos traz severa recomendação, chamando-nos à responsabilidade, num tempo de transição. Diz: “Porfiai, pois nos objetivos abraçados, sem jamais temerdes as forças do mal, que se diluem como a neblina ante o calor do Sol da Verdade, instituindo o período do amor como essencial para a felicidade de todos”.
Nesse momento, a assunção das nossas responsabilidades é que definirá a nossa estatura moral.
Podemos contribuir!
Quantas vezes nossos mentores ainda lamentarão as tarefas que abandonamos, em plenas condições de concluí-las com êxito?
Quantas vezes abandonaremos a oportunidade de servir, por impaciência ou pretenso cansaço?
Aceitemos a recomendação de cumprirmos nosso projeto de vida, agora sem olhar para trás, sem contar as dificuldades, sem desanimar, apesar dos tropeços do caminho.
Já rejeitamos muito as recomendações de Jesus, agora não vamos mais reclamar das dificuldades, porque os grandes empecilhos também passam.
Os Espíritos nos inspiram, nos recomendam, mas a escalada depende de nós.
Continuar depende de cada um.
 

Referências:

1)    XAVIER, Francisco Cândido (Pelo Espírito Irmão X). Cartas e Crônicas. 13ª. ed., Rio de Janeiro, FEB, 2010, p. 41.

2)    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131ª. ed., Brasília, FEB, 2013, p. 79.

3)    XAVIER, Francisco Cândido (Pelo Espírito Meimei). Pai Nosso. 27ª. ed., Rio de Janeiro, FEB, 206, p. 40.

4)    FRANCO, Divaldo (Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda). Transição Planetária. 5ª. ed., Salvador, Leal, 2012, p. 228.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

SOIS A LUZ!

Por Warwick Mota


Conforme nos ensina a moderna Psicologia, todos temos o Self, nosso eu verdadeiro, ainda mascarado pelo Ego, a personalidade que tem um contexto social muito ostensivo, porque se antepõe ao verdadeiro Eu. O Ego vem atender a necessidades sociais do nosso status quo. Então a manifestação egoica vai mascarando o Self, com alguns comportamentos que se manifestam de acordo com a ocasião. O Ego não permite que o verdadeiro Eu manifeste-se, e, portanto, criam-se diversas máscaras, com a atenção voltada ao comportamento social.

Então seguimos sobrepondo, em nós, egoísmo, orgulho, vaidade, o ciúme que destrói... E tudo isso vai impedindo que nosso ser verdadeiro manifeste-se.

Mas eis que Jesus vem e convida-nos a uma viagem na direção do nosso autoencontro, cujo principal prêmio será o conhecimento de nós mesmos. Aí rompemos as barreiras do Ego!

Jesus é o grande psicoterapeuta das nossas almas e, na grandeza do amor que ele tem por nós, convida o homem a uma nova condição: a de não mais ser quem teme a Deus, mas de ser o filho que ama o Pai que lhe examina os comportamentos.

Todos somos espíritos em evolução, em caminhada, ainda não perfeitos, com nossas experiências e fraquezas. Caminhamos juntos.

É isso que Jesus traz: que, nessa caminhada, podemos brilhar!

O “Vós sois a luz do mundo!”(1), dito pelo Mestre, é um convite a que construamos, em nós, a estrutura moral que nos dará sustentação, para sermos o porto seguro, a nós mesmos, mas também a nossa família, aos nossos amigos.

Toda luz possui uma fonte de energia que a sustenta e mantém.

Jesus é enfático quando afirma que nós somos a luz do mundo porque somos filhos da luz, e a fonte que nos alimenta é Deus.

O papel da luz é rasgar as trevas, iluminar.

Nosso papel, como cristãos, é iluminar os caminhos daqueles que caminham conosco, e Jesus também espera que sejamos as lanternas da boa vontade na doação das nossas forças em benefício do outro.

Precisamos ser luz.

Primeiro para nós mesmos, depois para os outros.

Precisamos manter nosso lume aceso, construído sobre um arcabouço moral-existencial, inclusive porque todos nós podemos, um dia, cair em erro, em algum momento da vida, já que todos somos falíveis.

E, nesse caso, se temos estruturada a nossa luz interior, após as tempestades sempre saberemos retornar ao início, aos nossos alicerces, e, ali, recomeçarmos a jornada interrompida.

Observemos que, num momento de dor, de muito sofrimento, de dificuldades, assim como o filho pródigo voltamo-nos também à casa paterna, que, na verdade, é Deus...

Nesses instantes, somos a própria a luz, buscando a fonte, o manancial que jamais se esgota, que é Deus, nosso Pai, todo Amor e Bondade.

Os momentos de erro, de quedas, são mesmo os instantes de fragmentações morais, quando se evidencia o bem e o mal que ainda existem em nós. Mas também, quando vivenciados, esses instantes representam a oportunidade de o dito Self  iluminar o caminho e, cada vez mais, fazer-se radioso.

É quando aceitamos e assumimos, em consonância ao preceito de Jesus, que somos, sim, luz.

Somos a luz do mundo e devemos fazer essa luz brilhar, em cada ato, cada gesto, cada passo.

Quando já temos conhecimento e vontade para iluminar, ainda que por momentos, a vida dos semelhantes, podemos guardar a certeza de que o maior beneficiado seremos sempre nós mesmos.

Busquemos ser as melhores pessoas que possamos ser, “lutando contra as sombras que ainda nos perturbam a existência, para que se faça em nós o reinado da luz” (2), todos os dias. Este, o lembrete que nos faz Emmanuel, acerca do convite, sempre presente, do Mestre Jesus: “Brilhe a vossa luz!” (3).


Referências:

1.     Mateus, 5:14.

2.     XAVIER, Francisco Cândido (Pelo Espírito Emmanuel). Fonte Viva. FEB, 17ª. ed,. 1990, Rio de Janeiro, RJ., p. 262.

3.     Mateus, 5:16

segunda-feira, 4 de abril de 2016

FATOS E BOATOS NO NOSSO DIA A DIA

 Por Warwick Mota
        
          O ato de falar mal de alguém, o boato constituído, a difamação, a detração, ou qualquer outra palavra que utilizemos para conceituar a ação de denegrir o outro pode sempre ser traduzida e entendida como maledicência.

          Tida, em nosso incipiente estágio evolutivo, por hábito corriqueiro ou comum, essa ação permeia os diversos ambientes sociais, corporativos, institucionais, familiares e até religiosos, contaminando pessoas e grupos, os quais, de maneira invigilante, vêm para ela contribuir, mesmo quando não repetem o que ouvem, mas dão azo à fala desrespeitosa, que, muitas vezes, tem o condão de desmontar a reputação alheia.
“Sabe da última?!”...
 A conversa maledicente quase sempre começa com a entonação característica, traduzindo espécime de senha social para a disseminação de histórias, cuja veracidade ninguém confirma, que avançam de boca em boca, de juízo em juízo, muitas vezes em questão de horas, incrementadas, por vezes, pela maldade na ampliação dos fatos, confirmando o dito popular de que “quem conta um conto aumenta um ponto”.
A ação, irrefletida, de se falar mal de outrem ou de se repetir histórias sobre as quais pouco se sabe, às vezes quase nada se sabe, tomando-as por verdadeiras apenas a título de assunto da hora, tem trazido, ao longo da história humana, prejuízos morais e materiais irreparáveis àqueles que são vítimas da detração, inclusive tem incentivado o que se popularizou chamar de bullying, a violência social contra pessoas, com intimidação sistemática.
Porque se fala tanto dos outros?!
Seria, por acaso, a vida dos outros, mais interessante que a nossa própria vida?!
Na maioria das vezes o que ocorre é que, invigilantes e descurados da nossa própria reforma moral, deixamo-nos contaminar muito facilmente pelas vibrações da maledicência, envolvidos pelo hábito infeliz de não questionar o que se escuta, esquecidos de que, assim agindo, acabamos emprestando os ouvidos a comentários que absolutamente nada constroem de positivo, mas, ao contrário, vinculam-nos a vibrações por demais inferiores.
Dando campo a que fatos não fundamentados espalhem-se, esquecemo-nos de que a responsabilidade pelos assuntos que propagamos é sempre dividida em cotas iguais, entre o maledicente e aquele que presta atenção ao mal.
Na era digital, então, difamar tornou-se processo razoavelmente fácil, porque os boatos, chamados, nas redes sociais, de hoax, num termo da língua inglesa, espalham-se em velocidade vertiginosa, devido à também chamada “compulsão digital”, impulso que leva usuários da rede mundial de computadores a repassarem tudo o que recebem, muitas vezes de maneira irrefletida, esquecidos mesmo do ensino de Jesus, de que: “Não é o que entra na boca que macula o homem; o que sai da boca do homem é que o macula”. (1)
Nos cenários digitais, em que autores de boatos e de fatos infundados podem facilmente se ocultar, nascem as detrações fortuitas, decorrentes, por vezes, de visão equivocada que as pessoas têm dos acontecimentos, ou da imaturidade revelada pelas rupturas de relações pessoais que ferem interesses e ampliam desequilíbrios latentes: muitos conflitos interpessoais revelam atores movidos pela mágoa, os quais, enceguecidos pelo desejo vingança, almejam a destruição do alvo dos seus desafetos e fazem-no com tamanha convicção que pessoas honestas muitas vezes são levadas a crerem no que se afirma, de maneira infundada.
Desfazer uma difamação ou boato, por outro lado, configura-se como processo extremamente complicado, às vezes impossível numa encarnação inteira, gerando dramas, que se arrastam nas teias do tempo, e processos de reparação dolorosa.
A esse respeito, a mentora Joanna de Ângelis ensina-nos que “o maledicente é atormentado que se debate nas lavas da própria inferioridade. Tem a visão tomada e tudo vê através das pesadas lentes que carrega”. (2)
          É de bom termo lembrar que quase todos nós, vez ou outra, somos alcançados pela tentação de acusar e apontar defeitos. O remédio, para esse impulso que nos denuncia a inferioridade espiritual, é sempre buscarmos nos recordar das nossas próprias limitações e imperfeições. Nunca é demais lembrar que, quando estendemos a mão para apontar o dedo a alguém, por um movimento natural involuntário essa mesma mão estará apontando três dedos para nós mesmos...
 
          Nada justo realçar-se os defeitos alheios, no interesse camuflado de prejudicar, de menoscabar o semelhante, ou na vera pequeneza de falar mal por prazer, para tirar proveito da situação, ou, até mesmo, para se vingar, sob qualquer pretexto. 

É o insigne Codificador quem nos adverte:  

Importa, porém, não esquecer que a indulgência para com os defeitos de outrem é uma das virtudes contidas na caridade. Antes de censurardes as imperfeições dos outros, vede se de vós não poderão dizer o mesmo. Tratai, pois, de possuir as qualidades opostas aos defeitos que criticais no vosso semelhante. Esse o meio de vos tornardes superiores a ele. Se lhe censurais a ser avaro, sede generosos; se o ser orgulhoso, sede humildes e modestos; se o ser áspero, sede brandos; se o proceder com pequenez, sede grandes em todas as vossas ações. Numa palavra, fazei por maneira que se não vos possam aplicar estas palavras de Jesus: Vê o argueiro no olho do seu vizinho e não vê a trave no seu próprio.  (3)
          Resta lembrar que as palavras criam imagens vivas, plasmadas no terreno mental do emissor, e, em assim sendo, produzem consequências diretas, em razão proporcional à sua motivação de origem. Fatos infundados e boatos espalhados tendem a sobreviver, alimentados pela mente que os originou com fins destrutivos, e, não raro, o próprio maldizente acaba sofrendo os efeitos da sua ação, na condição de vítima, ou de outras intrigas, ou dos mesmos equívocos que aponta nos outros.         

          Cabe-nos, portanto, em todos os momentos, a emissão da palavra comprometida com o bem e com a verdade, submetida sempre ao cadinho da razão: o que vamos falar é importante? É verdadeiro? Vai ajudar alguém? Vai construir algo de bom?
 
Não encontrando respostas para esses questionamentos, guardemos a informação, qualquer que seja, em nós mesmos, no sempre oportuno e adequado algodão do silêncio.

Transcrito do Reformador abril/2016 

Referências:

1)    Mateus, 15:11

2)    FRANCO, Divaldo (Joanna de Ângelis, Espírito). Lampadário Espírita. Federação Espírita Brasileira. 4ª. ed., Rio de Janeiro, RJ, 18989, p. 128.

3)    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Federação Espírita Brasileira. 83ª. ed., Rio de Janeiro, RJ, 2002, questão 903.

segunda-feira, 21 de março de 2016

JESUS, A LEI E NÓS

Por Warwick Mota


A 3ª edição francesa da obra “O Evangelho segundo o Espiritismo” pode ser definida como a edição máster, ou matriz, de todas as versões que a precedem, por ter sido revista, corrigida e modificada pelo insigne Mestre Lionês, o qual estruturou essa magnífica obra em cinco partes:

                                                    i.     Os atos comuns da vida de Cristo;
                                                   ii.     Os milagres;
                                                 iii.     As predições;
                                                 iv.     As palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamentos de seus dogmas; e
                                                  v.     O ensino moral.

Além dessa magistral divisão, chama-nos a atenção, sobremaneira, a construção didática da obra, que tem, a exemplo da construção de grande edifício, seus pilares de sustentação.
De fato, no Evangelho, quatro colunas mestras sustentam as diversas pavimentações temáticas da obra. Essas colunas podem ser vistas como os quatro primeiros capítulos que fulcram o edifício doutrinário, quais sejam:

                                                    i.     Não vim destruir a lei;
                                                   ii.     Meu reino não é deste mundo;
                                                 iii.     Há muitas moradas na casa de meu Pai; e
                                                 iv.     Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo.

Não pode nos causar qualquer receio afirmar que foi de maneira propositada que Kardec colocou o exame da Lei logo no capítulo primeiro, apresentando, aí, as Três Revelações; a aliança entre Ciência e Religião; e, por fim, as instruções dos Espíritos sobre a Nova Era. Dessa forma, foi construído o primeiro pilar do Evangelho segundo o Espiritismo.

Também jamais por acaso, esse capítulo primeiro é iniciado com as anotações do Evangelista Mateus: “Não penseis que eu tenha vindo destruir a lei ou os profetas; não os vim destruir, mas cumpri-los; porquanto em verdade vos digo que o céu e a Terra não passarão, sem que tudo o que se acha na lei esteja perfeitamente cumprido...” (1).

Quando assim afirma, a que Lei Jesus refere-se?

Essa pergunta é importante, não se tratando de simples predicação religiosa, mas, ao contrário, ela carrega, em si, objetivos e definições: Jesus faz essa afirmação categórica ao mesmo tempo em que propõe uma Boa Nova que questiona paradigmas sociais e políticos e apresenta também uma reflexão sobre o extremado formalismo religioso.

Kardec, no item dois desse mesmo capítulo primeiro, esclarece, sobre a Lei a que se refere Jesus:

Na lei mosaica, há duas partes distintas: a lei de Deus, promulgada no monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, decretada por Moisés. Uma é invariável; a outra, apropriada aos costumes e ao caráter do povo, se modifica com o tempo. (2).

Notadamente Jesus refere-se à primeira parte da Lei, que é invariável, e que mesmo Ele não possuiria o condão de modificar, ao contrário: o Mestre é enfático ao afirmar “que o céu e a Terra não passarão, sem que tudo que se acha na lei esteja perfeitamente cumprido.”

Por modificar o que teria de ser mudado nos valores humanos, a vinda de Jesus à Terra representa a Segunda Revelação.

A Boa Nova é verdadeira revolução nas relações sociais e interpessoais: a ideia do Deus parcial e vingativo apregoado na Primeira Revelação, bem como a exclusão social contida nos costumes, precisavam ser modificadas pelo exercício da ética do amor que estrutura a mensagem do Cristo.      

Um aspecto pulsante daquele contexto histórico, encontrado pelo Divino Amigo, foi a realidade da exclusão social decorrente das enfermidades graves.

Daquele cenário, salta-nos aos olhos o drama da mulher hemorroíssa, que sofria do mal há cerca de dez anos: ela era, em decorrência da enfermidade, considerada impura e vivia isolada, com proibição de que permitisse que a tocassem, porque, na visão ignorante da época, tinha-se receio de que o mal de que ela sofria fosse contagioso.

Ressalta-se que, naquele tempo, pessoas com enfermidades graves ou que haviam cometido crimes sérios eram excluídas do “livro dos vivos” pelo Sinédrio, ou seja: como que “desapareciam” mesmo, do mundo dos vivos.

Tanto assim que, quando Jesus curou o leproso, solicitou que ele fosse primeiro ao sacerdote e cumprisse os preceitos conforme previa a lei mosaica, a fim de que pudesse ser reincluído no livro dos vivos...

Ora, nesse contexto, a cura representava mesmo um processo de inclusão social, e Jesus, o Incomparável Amigo, assim o faz todo o tempo: reinclui todas as pessoas, não importando se fossem males físicos ou morais que elas carregassem consigo até então.

E isso porque Jesus consolidara tudo o que constava da Lei em apenas dois mandamentos, que passaram a ser a lei áurea daí em diante, regra de conduta pessoal, social, moral a toda a humanidade.

O resumo divinal proveio do Mestre em resposta a pergunta capciosa que mero doutor da Lei havia lhe feito (3):

“(...) Mestre, qual o mandamento maior da lei?”

Jesus ensina:

 “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.”
                   
Simples?!...

…Aparentemente sim.

Afinal, são apenas dois mandamentos, com três deveres neles explícitos: amar a Deus sobre todas as coisas; amar a nós mesmos; amar ao próximo.

E é necessariamente nesta ordem que ensina Jesus: amar a Deus; a nós mesmos; e ao próximo, porquanto, embora o próximo esteja em evidência – “amarás ao próximo como a ti...” - a referência somos nós.

Esses deveres, compondo uma tríade, interagem entre si, e qualquer dever que se deixe de cumprir impactará, direta ou indiretamente, no cumprimento dos outros dois deveres, o que faz com que, na prática, a aplicação do mandamento, devido ao nosso atraso evolutivo, não se torne tão simples assim...

Para sabermos se estamos ou não cumprindo com o Mandamento Maior é que Santo Agostinho, na questão 919, de O Livro dos Espíritos (4), apresenta-nos sua fórmula, experimentada por ele, quando ainda no corpo: a solução é mesmo a autorreflexão diária...

É necessário enfatizar: todo o ensinamento de Jesus está sintetizado nestes dois mandamentos: amar a Deus e ao nosso próximo, como nos amamos.

Quem assim afirma é o próprio Cristo.

Não é senão Ele quem diz que “toda a lei...” – notemos: toda a Lei! - “toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.”

Isso implica dizer que tudo o que foi ensinado abriga as relações entre Deus, o próximo e nós, sob qualquer contexto.

Aí reside o real cumprimento da Lei!

É o cumprimento verdadeiro da Lei que a vida aguarda de nós: que amemos a Deus, enxergando-O em nós mesmos e no próximo, nosso igual, nosso irmão.

Cabe então perguntarmos, a nós mesmos, como estamos enxergando a vivência da Lei nos dias atuais.

Enxergamo-la, conforme ensinou Jesus?

Quantos dos artigos dela, da Lei, contidos nos mandamentos do Sinai, ainda infringimos, diariamente?

Quem é que ainda estamos excluindo, egoisticamente, do nosso secreto e pessoal “livro dos vivos” ?!

No episódio do julgamento da mulher adúltera, Jesus desafia-nos: “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra...” (5).
         
Nos dias atuais, a arrogância, muitas vezes disfarçada sob o nome de conhecimento intelectual, e o atraso moral, que vem com o nome de hedonismo, conclamando todos à vivência imediata do deleite de todos os sentidos e prazeres, em verdade têm logrado afastar o homem, corrompido, da vivência da Lei de Deus.

No entanto, cedo ou tarde, essa mesma Lei, por mecanismos naturais e específicos, haverá de conduzir-nos ao seu inexorável cumprimento, fazendo-nos recordar da nossa minguada ascensão evolutiva e, portanto, da imediata necessidade de avançarmos, por meio do simples, mas, muitas vezes, amargo despertar da nossa consciência, que, invariavelmente, é sempre acordada ao toque pedagógico da dor



Publicado na Revista Internacional de Espiritismo - RIE - março/2016

Referências:
11)      KARDEC, Allan, O Evangelho Segundo o Espiritismo. 131ª. ed. Brasília, FEB, 2013 p. 41.
22)      Idem. ibidem. p, 41.
33)      Lucas, 10:27
44)      KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos. 83ª. ed. Rio de Janeiro, FEB, 2002 p. 423.

55)      João, 8: 1-11

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