sábado, 16 de julho de 2016

O ESPÍRITA EM MEIO À CRISE

Por Warwick Mota


O Livro dos Espíritos é pródigo na firmeza e na profundidade dos seus ensinamentos, e, não raro, revisitamo-lo, na busca do entendimento sobre os mais variados temas. Acerca das crises morais coletivas, oriundas das conjurações políticas que parecem retardar a marcha do progresso das nações terrenas, também buscamo-lo. Não poderia ser diferente.

O Codificador, atento ao comportamento sócioemocional humano ainda imaturo, examina a Lei do Progresso sob variados contextos e questiona à Espiritualidade se os limites da ação direta do homem poderiam se consubstanciar em uma possível capacidade que este teria de retardar a ação da referida Lei. É o que indaga, na questão 781, da obra (1): “É permitido ao homem deter a marcha do progresso?”

Ao que os Espíritos respondem, sem tergiversar: “Não, mas pode entravá-la algumas vezes.”

É de conhecimento comum que, no presente momento, em nosso país, vivemos aparente situação de fragilidade social e política: o povo e as instituições sofrem arremetidas em diferentes níveis, morais e materiais. A todo instante são divulgadas afrontas, denúncias, traições, desconstruções sociais ou políticas, algumas tenazes, e nós, os espíritas, muitas vezes nos deixamos contaminar pelo clima de incerteza angustiosa que ameaça pairar por sobre o céu da Pátria.

É que, como não poderia mesmo ser diferente, atenta à fragilidade da nossa guarda moral, também a espiritualidade menos feliz age, alimentando, de diversas formas, o pessimismo que viceja nos corações descuidados e lançando sugestões que, muitas vezes, são abraçadas e disseminadas por indivíduos despreparados, na forma de ações incautas ou boatos apocalípticos que anunciam tragédias irreais, muitas das quais jamais passíveis de realmente virem a se concretizar.

Uma das recentes façanhas desses chamados disseminadores de hoax, que, lamentavelmente, pululam nas redes sociais, traduziu-se na falsa divulgação de que o médium baiano Divaldo Pereira Franco teria anunciado uma previsão de guerra civil, face às dificuldades políticas e econômicas que o Brasil atravessa. Pura falácia. Boato pueril, para quem sabe da trajetória correta e idônea do médium, mas que pode assustar a quem não conhece verdadeiramente a Doutrina Espírita.
É necessário esclarecermos que a mediunidade séria, vivida com Jesus, não será nunca veículo de propagação de absurdos indébitos, tampouco estará a serviço de espíritos zombeteiros, que se comprazem no estado de apavoramento a que mentes ingênuas deixam-se levar, aumentando ainda mais o estado de tensão no cenário social e levando pânico e terror aos corações atordoados.
Certamente reconhecemos que ações políticas mal encaminhadas, sejam ou não mal intencionadas, podem embaraçar a marcha do progresso das nações, mas também havemos de reconhecer que, em tempos de iniqüidades, a recomendação aos trabalhadores que se esmeram no Bem é de que perseverem servindo.
Não se entregar ao desespero, mas, ao contrário, seguir, na medida do possível, orando, esclarecendo, pacificando e amparando é dever de todos os que nos candidatamos à Seara de Jesus. Foi a isso que o Mestre convidou-nos, quando, à pessoa do pescador de Cafarnaum, rogou, solícito: “Pedro, apascenta minhas ovelhas”(2).
Quando Jesus convida-nos a apaziguarmos os ânimos das ovelhas aguerridas, é porque sabia que cenários futuros seriam de embates, sem trégua.
Não há porque nos desesperarmos, mesmo quando o contexto do nosso país pareça de desencanto e tristeza:
 “... todas as fórmulas humanas, dentro das concepções que exprimam, por mais elevadas que se afigurem, são perecíveis e transitórias. A política sofrerá, no curso dos séculos, as alternativas do direito e da força e da força do direito, até que o planeta possa atingir relativa perfeição social” (3).
Dessa forma, perseverar no bem, não descrer, ainda quando muitos estiverem descrentes, seguir com fé, mesmo quando muitos intentem desistir, é dever de todo espírita cristão.
Em momentos de dificuldades, o desânimo tende a afastar do labor da caridade aqueles que ainda não estruturaram fortemente sua fé. Acerca desses dias de transição, “a caridade de muitos esfriará” (4), já nos advertia o Divino Amigo, há mais de dois milênios.

A nós, que dispomos da fé alicerçada no raciocínio, que dispomos da bússola que é a Doutrina dos Espíritos, não cabem o medo, nem o desequilíbrio, tampouco a intemperança no agir, no pensar, no aguardar dos fatos. Os tempos são de transição, mas o servo equipado não há de temer as tempestades que, temporariamente, obstruam-lhe o caminho.                   

Crises políticas, derrocadas de instituições falíveis, desestruturações de entidades outrora críveis, tudo isso passará, porquanto a transitoriedade é uma das características que marcam os mundos de provas e expiações, onde também os sofrimentos não têm caráter definitivo.

Mesmo que o cenário nacional, no dia de hoje, pareça-nos adverso, apliquemos um tanto mais de paciência e trabalho, únicos lenitivos possíveis de modificarem, de maneira decisiva, um panorama que se faz negativo.

Ainda que assim o digam, o momento não é de desespero, mas de construção de dias melhores.

Sintetizado na confiança expressa do sempre presente Bezerra de Menezes, para todo brasileiro, este, sim, “é um momento de siso, de decisões, para a paz no período do porvir” (5).

Publicado na revista Reformador - julho/2016
http://www.loja.souleitorespirita.com.br/

Referências:

1)    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Ed. Especial. Rio de Janeiro: FEB, 2007, p. 473

2)    João, 21:17

3)    XAVIER, Francisco Cândido (Pelo Espírito Humberto de Campos). Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho. 34ª. ed., Brasília: FEB, 2013, p.186.

4)    Mateus, 24:12

5)    Momento decisivo. Bezerra de Menezes. Mensagem psicofônica recebida pelo médium Divaldo Pereira Franco, disponível em http://www.febnet.org.br/blog/geral/noticias/momento-decisivo-2/. Acesso em 22 de março de 2016.

NOSSA CONDIÇÃO ESPIRITUAL

Por Warwick Mota

Este tema é muito importante: preocupamo-nos constantemente com a nossa condição material, física...

Precisamos nos preocupar, também, com a nossa condição espiritual.

A Espiritualidade sempre nos propõe a reflexão sobre o tema.

Muitas vezes, quando nos propomos um projeto de vida, desistimos logo no início, quando esse projeto requer mudança íntima, de atitude.

São sempre a comodidade à rotina e o desânimo que nos fazem estacionar, apesar de tantas capacidades que temos, de avançar...

Por que será que não mantemos, nessas decisões, a perseverança?!

É assertiva do Cristo: “aquele que perseverar até o fim será salvo...” (1).

Jesus quer nos dizer que a perseverança deve ser, para nós, um alvo.

Se não colocarmos a perseverança como meta, nossa caridade tenderá a se esfriar e, de repente, o que antes era desejo ardoroso perde-se em meio a tantos nadas do dia a dia.

Há algum tempo, vi um grupo de amigos fundar uma casa espírita.

Um colaborador queria começar todas as atividades, de imediato: estava na recepção, também na livraria, cuidava do estudo, não saía mais do centro. De domingo a domingo estava no labor, sem parar...

Passou o tempo.

Após assumir muitos compromissos, de repente ele desapareceu.

Sumiu de todos os trabalhos.

Um dia, eu ia andando por uma avenida, na cidade, e o encontrei.

Perguntei o que tinha acontecido, porque ele havia sumido das tarefas naquela casa, e então ele me respondeu: - me cansei de tanto trabalho, agora eu sou espírita freelancer!...

Assim disse para me explicar que, agora, quando queria, fazia alguma atividade em alguma casa espírita, aqui ou ali...

E só. Sem compromisso.

Lamentei.

Não podemos deixar a caridade, no nosso coração, esfriar...

Isso denota falta de perseverança diante das tarefas.

E, manter perseverança, dá também conta da nossa condição espiritual.

Perseverança é firmeza, constância nos propósitos. É seguirmos adiante, para além das dificuldades, sem desistirmos.

Na nossa vida, encontramos obstáculos, todos os dias.

Aqui, é a dificuldade que se faz presente.

Mais ali, nos falta a fé...

Mais um pouco e nos envergonhamos do nosso pouco desenvolvimento espiritual e, pior, nos retraímos diante das tarefas apresentadas, achando-nos pequenos demais...

Precisamos nos encorajar, apesar da condição espiritual em que nos encontramos.

Na verdade, os apóstolos que Jesus escolheu também titubearam em alguns instantes.

Vejamos o episódio da barca (2).

Jesus dormia. Começou a tempestade. Os discípulos se apavoraram:

- Mestre, nós vamos morrer e tu dormes?!

Vejamos a insegurança neles...

...E era Jesus quem estava ali!

 Jesus, que ultrapassa, sem limites, a condição espiritual de todos os habitantes do planeta!

Na verdade, não temos nem condições de avaliar o quilate espiritual do Mestre.

Apenas sabemos que, em nossa humilde condição, devemos segui-lo...

E seguimo-lo porque são os Espíritos quem nos falam, em resposta a Kardec (3), que Ele é o modelo mais perfeito e puro que já pisou a Terra.

Então, para nosso modelo de condição espiritual a ser alcançada, Jesus é a referência.

A pergunta que temos de sempre fazer é: em que condição espiritual vamos, desta vez, retornar à Espiritualidade, de onde saímos um dia, cheios de promessas?

Qual é o lastro que levaremos conosco?

Numa alegoria, podemos dizer que, na Contabilidade Divina, nosso ativo serão sempre as aquisições de ordem moral.

Essas, na hora do desencarne, apresentam-se com liquidez imediata!

Falam de nós, dão conta de nós.

Apenas elas.

Então o natural é cobrarmos de nós, que já estamos na Doutrina, um arquivo de obras do bem realmente feitas.

E o que não é natural é deixarmos que os pequenos empecilhos, onde a gente também escorrega, façam-nos estacionar no erro...

A proposta da Doutrina Espírita, para nós, é uma proposta de auto-responsabilização, sem a culpa que desestrutura o psiquismo.

A responsabilização, ao contrário, eleva-nos, nos dá renovada estatura moral, porque nos mostra que podemos refazer os nossos caminhos, não como vítimas de nós mesmos, mas como pessoas que têm a grandeza de recomeçar.

E, então, seremos perseverantes diante das transformações necessárias.

A gente não olha o espelho do rosto?

Precisamos também auscultar a alma!

Não temos tantos projetos de vida?...

Temos de ter projetos espirituais também!

Precisamos ser protagonistas de nossa própria transformação espiritual.

Ninguém contrata um arquiteto, um profissional de obras, e fica do lado de fora da residência, esperando que os outros façam as transformações desejadas, sem opinar, sem explicar, sem participar da reforma...

Da mesma forma, para alterarmos a nossa condição espiritual, precisamos olhar para nós mesmos, reconhecendo nossos defeitos, nossas dificuldades, e, também, exaltar alguma virtude de que sejamos portadores, para avançarmos.

Sem autoavaliação, não é possível construir-se nada...

O que precisamos nos lembrar é que somos herdeiros de nossas próprias conquistas, porque somos responsáveis por elas.

E podemos alterar nossa trajetória espiritual, porque, aprendemos, não há engessamento na lei de causa e efeito.

Sejamos perseverantes.

Não podemos deixar que pequenos desencantos nos façam desistir.

Se deixarmos esfriar o ímpeto para o trabalho, para o bem, vamos deixar de agir em prol do próximo e, naturalmente, estaremos deixando de fazer por nós mesmos.

Cabe ao espírita caminhar decidido, com perseverança.


Continuar seguindo, com a consciência lúcida, amadurecida, sem se desesperar ante as pequenas dificuldades.

O que é importante lembrarmos é que a condição que chegaremos ao plano espiritual e às próximas vidas está sendo definida agora. 

Publicado no jornal O Clarim julho/2016
https://www.oclarim.org/oclarim/2016/Julho/318/jornal-o-clarim.html

Referências:
1)      Mateus, 24: 24
2)      Marcos, 4: 38
3)      KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 83ª. ed.: Rio de Janeiro, FEB. q. 625, p. 308.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

CIÚME: ESSA INEGÁVEL DOENÇA DA ALMA

Por Warwick Mota
“Você já sentiu ciúme?...”

Diante dessa pergunta tão peculiar, forçoso é-nos reconhecer que, sim, todos nós, em algum momento das nossas vidas, já fomos tomados, em maior ou menor grau e intensidade, por esse sentimento, tão corrosivo quão doloroso: os ciúmes...

Emoção de caráter extremamente potente e explosiva, típica da condição de almas em pleno atraso evolutivo, o ciúme é externado de diversas maneiras. Em regra, apresenta-se na forma de extremado sentimento de posse, ou de forte desejo de exclusividade, na ilusória suposição de se manter uma pessoa ou algo junto a si.
Na verdade, o pior ciúme é mesmo o que tem por alvo outra pessoa, porque, invariavelmente, faz o outro sofrer...

Igualando pessoas a coisas, na suposição de se ter, delas, o domínio definitivo e irrevogável, o sentimento possessivo vem sempre acompanhado de fértil produção imaginativa, que potencializa as emoções animalizadas e aumenta o transtorno na personalidade do perfil ciumento.


Também invariavelmente, o espírito, encarnado ou não, perturbado pela sensação do ciúme, imagina cenas que jamais aconteceram; pensa em situações que nunca se concretizaram; e perturba-se com muito pouco, imaginando a iminente perda dos seus afetos...

...É muito sofrimento!

Em situações-limites, imerso nos relacionamentos, sem controle, sem travas morais, sem educação sentimental, o ciúme é o motor responsável pelo despertar de comportamentos compulsivos, que impulsionam o ciumento a elaborar estratégias para tentar controlar o que o parceiro ou parceira poderia fazer, chegando-se às raias de se buscar supor o que é que o outro, o alvo dos sentimentos desequilibrados, poderia estar pensando, imaginando, ou, quem sabe, sentindo...

Esse aterrador sentimento patológico é ainda estopim comum de recorrentes episódios de violência passional que ilustram o cotidiano coletivo, folhetins e jornais policialescos.

...Mas, o que está por trás desse comportamento obsessivo-compulsivo, que leva um ser humano ao delírio de achar que outro ser humano poderia lhe ser posse única e exclusiva na Terra?!
A resposta a esse devaneio de ainda muitas pessoas, materializado na real coisificação do outro, com o fim de ter-lhe a posse exclusiva, reside em nada além do que no atraso moral do espírito, como de resto também residem todas as outras doenças da alma.

Sempre sábio, é Kardec quem nos afirma que todos os vícios promanam do egoísmo e do orgulho. Com esse sentimento desvirtuado, o ciúme, também não poderia ser diferente: o desejo enceguecido de posse de outra pessoa nada mais é do que a exacerbação do egoísmo, gerando espécie de “síndrome de propriedade”, para com o semelhante, e aguardando a cura somente por meio da necessária reforma íntima, onde o suporte poderão ser tratamentos espirituais e psicoterápicos, além do estudo e da busca do autoconhecimento, para a ulterior autoeducação.

Ao contrário do que muitos podem pensar, a inquietante problemática do ciúme não se limita às ações que marcam os sufocantes conflitos vividos nas relações afetivas constituídas do plano físico. Esses conflitos obsessivo-compulsivos estendem-se ao plano extrafísico, potencializados por variáveis ocultas, como a ação mento-magnética dos obsessores, conforme relata André Luiz, em emblemático caso narrado na obra “Entre a Terra e o Céu” (1).
No referido romance, Odila, já desencarnada, atormenta a atual esposa do marido, Zulmira, sem lhe dar trégua. É que a falecida, magoada em seus afetos, não permitia, em hipótese alguma, que o esposo refizesse a vida ao lado de outra mulher...

“– Odila, o ciúme que não destruímos, enquanto dispomos da oportunidade de trabalhar no corpo denso, transforma-se em aflitiva fogueira a calcinar-nos o coração, depois da morte”.

Esse, o conselho do mentor à ciumenta.
 
Diretriz que valeria também à segunda esposa do viúvo, a qual, desejando tanto a posse exclusiva do seu amado, planeja a morte de um dos filhos, a ela ligado na condição de enteado, com o devaneio tresloucado de obter ascensão única no coração disputado.
 
No drama torturado de Odila e Zulmira pressentimos o sofrimento de todos os que buscam reinar absolutos no coração de qualquer outra pessoa, como se isso fosse humanamente possível, tendo em vista que a destinação do ser humano é sempre amar ao seu próximo, para crescer em amor puro e desinteressado, até amar a humanidade toda, como o Cristo ensinou.

De fato, acerca dessa problemática, Emmanuel assevera-nos: “o ciúme (...) é um indício de atraso moral ou de estacionamento no egoísmo, dolorosa situação que o homem somente vencerá a golpes de muito esforço, na oração e na vigilância...” (2).


Para quem sente essa dor no coração, o ciúme que corrói e abate, resta saber que os ensinos espíritas deixam patente que depende de nós ampliarmos ou suavizarmos o amargor de nossas provas, pois se, por vezes, somos nós mesmos os causadores dos nossos sofrimentos materiais, por uma decorrência natural, somos nós também os causadores dos nossos sofrimentos morais.


Em nosso socorro, leciona o insigne Codificador, ao afirmar que esse temor afetivo é “o ciúme aliado à mediocridade”, porquanto “se se colocar fora do círculo acanhado da vida material, se elevar seus pensamentos para o infinito, que é seu destino, mesquinhas e pueris lhe parecerão as vicissitudes da Humanidade” (3).

Resta-nos afirmar que o nosso caminhar pela existência, seja a sós, em família, em sociedade, ou numa relação a dois, deve sempre se pautar pelos sentimentos da verdadeira fraternidade, que se materializa pelo respeito mútuo e, sobretudo, pelo exercício do amor pleno, desvinculado das sutis armadilhas que o egoísmo espalha pelo caminho.

Necessário iluminar as nossas mentes pela prática da oração, fortalecendo a realização do esforço pessoal, com o que estaremos, consequentemente, desenvolvendo os mecanismos fundamentais para a eliminação do ciúme, “deplorável cegueira humana” (4), de nossas vidas.

Um dia, enfim, livre desses sentimentos infelizes que nos atrasam a caminhada evolutiva, aprenderemos que quem nos ama verdadeiramente haverá de seguir nos amando, onde quer que esteja. E, espíritos imortais que somos, veremos que aqueles que se amam, quando momentaneamente separados por razões reencarnatórias que, a mais das vezes, desconhecem, sempre haverão de se reencontrar, e, em condições outras, mais favoráveis, terão a permissão divina para, então, seguirem juntos seus caminhos, lado a lado, sem jamais se separarem, se essa for a vontade livre de ambos os corações.

Publicado no Reformador jun/2016 - http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/

 

Referências:
1-    XAVIER, Francisco Cândido (pelo Espírito André Luiz). Entre a Terra e o Céu. 27ª. ed. FEB. Brasília, 2013, p. 156.
2-    XAVIER, Francisco Cândido (pelo Espírito Emmanuel). O Consolador. 29ª. ed. FEB. Brasília, 2013, p. 122.
3-    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 933. FEB, 83ª. ed, Rio de Janeiro, 2002.
4-    XAVIER, Francisco Cândido (por Espíritos diversos). O Espírito da Verdade. 18ª. ed. FEB. Brasília, 2013, p. 115.

RECOMENDAÇÃO DETESTADA

Por Warwick Mota

O que seria, na nossa vida, uma recomendação rejeitada?
 
Na obra Cartas e Crônicas, o Espírito Irmão X traz a história de Custódio (1), um amigo que ele reencontra no plano espiritual, o qual, embora nascido na Terra em lar espírita e ter recebido, ao longo da existência, reiterados chamados ao trabalho edificante e à reforma íntima, apresenta-se de volta à pátria espiritual na base do “ganhou, mas não leva”, ou seja: muito preparo, excelente bagagem doutrinária, mas nenhuma ação efetiva no Bem.
Todas as recomendações que Custódio, em vida, recebera, foram-lhe inúteis, porque sumariamente rejeitadas...
Nesta crônica, maravilhosa, evidenciam-se as recomendações que a maioria de nós ainda detesta...
 
Na Terra, ainda é muito comum buscarmos o conforto, em vez de quaisquer dificuldades; querermos que Deus resolva tudo o que consideramos injustiças para conosco e reveja nossa situação...
Pensemos no quanto de responsabilidade temos sobre o cenário das nossas vidas, não culpando Deus, os espíritos ou quem quer que seja pela desordem instalada, seja esta física ou espiritual.
O Evangelho nos traz, claramente, a questão das causas anteriores e das causas atuais das aflições (2).
Então o homem é o artífice de seu próprio destino e receberá de volta a reação do que praticar, nesta ou em existências futuras.
Dificuldades financeiras são exemplos clássicos de perturbações que, muitas vezes, nós mesmos nos infligimos.
Em grave crise material, a pessoa culpa o destino: a situação é fruto de suposta “má estrela” ou terá sido pura imprevidência?!
É de se observar...
Há também, as dificuldades no campo da saúde.
Elas tiveram origem no passado encarnatório do indivíduo?
Talvez sim, talvez não...
Pois há que se verificar se houve abusos.
Os vícios morais também nos adoecem.
Por isso vem a recomendação, que muitas vezes rejeitamos, de nos esforçarmos para sermos melhores, em nosso próprio benefício.
A recomendação é difícil, mas tem de ser seguida.
Significa lutarmos contra o que de ruim ainda existe em nós: o ciúme, a ausência do perdão, a maledicência, a propensão às traições e ao mal de toda ordem. Tudo o que só trará conseqüências funestas a nós mesmos, senão nesta, em futuras existências.
Precisamos combater tanto ainda em nós: aquela mania de falar demais, sem deixar os outros falarem; o péssimo hábito de acharmos que só nós estamos certos, taxando os outros de errados; a megalomania de nos considerarmos superiores; o costume de mentir, para se justificar; o vício de querer dominar...
Se formos enumerar, a lista é sem conta.
Tem também a mania de iludir; o gosto por se vitimizar, fazendo do sofrimento uma muleta, vida afora; o hábito contínuo de se lamentar, comprazendo-se com o sofrimento...
São falhas morais, que os espíritos nos recomendam combater.
E não há mais como rejeitarmos essas recomendações, se quisermos ser o homem novo que a Doutrina Espírita convida-nos a ser.
O Espírito Meimei conta-nos a lenda dos que três jovens que pediram ardentemente que Jesus lhes aparecesse (3).
Quando o Mestre veio, um deles pediu ao Senhor que lhe concedesse beleza. O outro pediu riqueza. O terceiro, o que fosse justo...
Concedido os pedidos, o terceiro ganhou uma pedra.
E os outros fizeram pilhéria dele.
Afastaram-se.
Anos passados, no entanto, quando a beleza tinha se acabado e a riqueza também, os dois rapazes, empobrecidos e tristes, foram então socorridos por aquele simples terceiro, que houvera recebido apenas a  pedra que Jesus lhe enviara.
Foi aí que os dois vieram a saber que o terceiro rapaz tornara-se muito rico, pois, lapidando a pedra recebida, descobrira, nela, grande tesouro oculto...
A alegoria serve a nós mesmos: quantas vezes nos preocupamos apenas em crescer no campo material, esquecendo-nos da recomendação de Jesus, de que acumulemos tesouros que a traça não corrói?
É a recomendação acertada - porém, por nós, em tantas encarnações, rejeitada.
Quantas vezes não cometemos abusos de toda ordem, conosco mesmos, pelo excesso de trabalho, no afã do ter?
Não é isso que Jesus nos recomenda.
A recomendação verdadeira é de perseverança na vida, de constância nos propósitos, de força nas dificuldades.
Nossa existência também pode ser vista como uma rocha a ser burilada, a partir das dificuldades enfrentadas.
E são dificuldades das mais variadas, pois se relacionam à condição do planeta em que habitamos, que é um campo de provas e de expiações...
Em Transição Planetária, o Espírito Bittencourt Sampaio (4) também nos traz severa recomendação, chamando-nos à responsabilidade, num tempo de transição. Diz: “Porfiai, pois nos objetivos abraçados, sem jamais temerdes as forças do mal, que se diluem como a neblina ante o calor do Sol da Verdade, instituindo o período do amor como essencial para a felicidade de todos”.
Nesse momento, a assunção das nossas responsabilidades é que definirá a nossa estatura moral.
Podemos contribuir!
Quantas vezes nossos mentores ainda lamentarão as tarefas que abandonamos, em plenas condições de concluí-las com êxito?
Quantas vezes abandonaremos a oportunidade de servir, por impaciência ou pretenso cansaço?
Aceitemos a recomendação de cumprirmos nosso projeto de vida, agora sem olhar para trás, sem contar as dificuldades, sem desanimar, apesar dos tropeços do caminho.
Já rejeitamos muito as recomendações de Jesus, agora não vamos mais reclamar das dificuldades, porque os grandes empecilhos também passam.
Os Espíritos nos inspiram, nos recomendam, mas a escalada depende de nós.
Continuar depende de cada um.
 

Referências:

1)    XAVIER, Francisco Cândido (Pelo Espírito Irmão X). Cartas e Crônicas. 13ª. ed., Rio de Janeiro, FEB, 2010, p. 41.

2)    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131ª. ed., Brasília, FEB, 2013, p. 79.

3)    XAVIER, Francisco Cândido (Pelo Espírito Meimei). Pai Nosso. 27ª. ed., Rio de Janeiro, FEB, 206, p. 40.

4)    FRANCO, Divaldo (Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda). Transição Planetária. 5ª. ed., Salvador, Leal, 2012, p. 228.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

SOIS A LUZ!

Por Warwick Mota


Conforme nos ensina a moderna Psicologia, todos temos o Self, nosso eu verdadeiro, ainda mascarado pelo Ego, a personalidade que tem um contexto social muito ostensivo, porque se antepõe ao verdadeiro Eu. O Ego vem atender a necessidades sociais do nosso status quo. Então a manifestação egoica vai mascarando o Self, com alguns comportamentos que se manifestam de acordo com a ocasião. O Ego não permite que o verdadeiro Eu manifeste-se, e, portanto, criam-se diversas máscaras, com a atenção voltada ao comportamento social.

Então seguimos sobrepondo, em nós, egoísmo, orgulho, vaidade, o ciúme que destrói... E tudo isso vai impedindo que nosso ser verdadeiro manifeste-se.

Mas eis que Jesus vem e convida-nos a uma viagem na direção do nosso autoencontro, cujo principal prêmio será o conhecimento de nós mesmos. Aí rompemos as barreiras do Ego!

Jesus é o grande psicoterapeuta das nossas almas e, na grandeza do amor que ele tem por nós, convida o homem a uma nova condição: a de não mais ser quem teme a Deus, mas de ser o filho que ama o Pai que lhe examina os comportamentos.

Todos somos espíritos em evolução, em caminhada, ainda não perfeitos, com nossas experiências e fraquezas. Caminhamos juntos.

É isso que Jesus traz: que, nessa caminhada, podemos brilhar!

O “Vós sois a luz do mundo!”(1), dito pelo Mestre, é um convite a que construamos, em nós, a estrutura moral que nos dará sustentação, para sermos o porto seguro, a nós mesmos, mas também a nossa família, aos nossos amigos.

Toda luz possui uma fonte de energia que a sustenta e mantém.

Jesus é enfático quando afirma que nós somos a luz do mundo porque somos filhos da luz, e a fonte que nos alimenta é Deus.

O papel da luz é rasgar as trevas, iluminar.

Nosso papel, como cristãos, é iluminar os caminhos daqueles que caminham conosco, e Jesus também espera que sejamos as lanternas da boa vontade na doação das nossas forças em benefício do outro.

Precisamos ser luz.

Primeiro para nós mesmos, depois para os outros.

Precisamos manter nosso lume aceso, construído sobre um arcabouço moral-existencial, inclusive porque todos nós podemos, um dia, cair em erro, em algum momento da vida, já que todos somos falíveis.

E, nesse caso, se temos estruturada a nossa luz interior, após as tempestades sempre saberemos retornar ao início, aos nossos alicerces, e, ali, recomeçarmos a jornada interrompida.

Observemos que, num momento de dor, de muito sofrimento, de dificuldades, assim como o filho pródigo voltamo-nos também à casa paterna, que, na verdade, é Deus...

Nesses instantes, somos a própria a luz, buscando a fonte, o manancial que jamais se esgota, que é Deus, nosso Pai, todo Amor e Bondade.

Os momentos de erro, de quedas, são mesmo os instantes de fragmentações morais, quando se evidencia o bem e o mal que ainda existem em nós. Mas também, quando vivenciados, esses instantes representam a oportunidade de o dito Self  iluminar o caminho e, cada vez mais, fazer-se radioso.

É quando aceitamos e assumimos, em consonância ao preceito de Jesus, que somos, sim, luz.

Somos a luz do mundo e devemos fazer essa luz brilhar, em cada ato, cada gesto, cada passo.

Quando já temos conhecimento e vontade para iluminar, ainda que por momentos, a vida dos semelhantes, podemos guardar a certeza de que o maior beneficiado seremos sempre nós mesmos.

Busquemos ser as melhores pessoas que possamos ser, “lutando contra as sombras que ainda nos perturbam a existência, para que se faça em nós o reinado da luz” (2), todos os dias. Este, o lembrete que nos faz Emmanuel, acerca do convite, sempre presente, do Mestre Jesus: “Brilhe a vossa luz!” (3).


Referências:

1.     Mateus, 5:14.

2.     XAVIER, Francisco Cândido (Pelo Espírito Emmanuel). Fonte Viva. FEB, 17ª. ed,. 1990, Rio de Janeiro, RJ., p. 262.

3.     Mateus, 5:16

ECOLOGIA E ESPIRITISMO

Por Warwick Mota    Vivenciamos na atualidade o limiar de uma grande transição: eventos sociais e físicos eclodem em todo o planeta demonstr...