quinta-feira, 9 de março de 2017

A PORTA DA REDENÇÃO



Por Warwick Mota


Na lição 115 de Pão Nosso (1), Emmanuel desafia-nos com a seguinte assertiva: “não basta alcançar as qualidades da ovelha, quanto à mansidão e ternura, para atingir o reino divino”.

A explicação do mentor de Chico Xavier remete-nos à fala de Jesus: “em verdade vos digo que eu sou a porta das ovelhas” (2). Sendo, essa afirmação, muito adequada, porquanto o Mestre sempre buscava se apropriar dos elementos mais simples, próximos à vida das pessoas, para ilustrar seus ensinamentos.

O muro que cercava Jerusalém, a cidade antiga, era composto por 12 portas.
Hoje são oito portas apenas.

Como muitas estradas tinham por destino Jerusalém, cada porta desse muro representava a recepção ao viajor ou o fim de um caminho, podendo ser, ainda, a tomada de um destino, para quem desejasse seguir em frente.

Ali, nas portas de Jerusalém, é que eram passadas informações, ocorriam as feiras...

Para cada porta, um simbolismo.

Havia, por exemplo, a porta do peixe; a porta velha; a porta do vale; a do monturo; a da fonte...

Tinha também a porta do gado, que era conhecida por ser a “porta das ovelhas”: essa entrada apresentava um significado especial, pois era por ali que passavam ovelhas e carneiros destinados, pelos hebreus, ao sacrifício.

Então era um local consagrado.

Era a única porta sagrada.

Jesus passou diversas vezes por esse pórtico. Ele conhecia o cotidiano popular e, então, apropriou-se também desse simbolismo, traduzindo o que deveria ser mera simbologia  ao seu sentido verdadeiro, já que a porta era tida por passagem para Deus.

O Mestre vem e encerra o ensinamento, dizendo: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim (...) achará pastagem...” (3).

E extingue, aí, toda a alegoria da tradição que exigia sacrifícios e rituais.
Com Jesus, não mais forma, mas conteúdo;

Não mais exterior, mas o interior;
Não mais externalidades inúteis, mas a realidade do nosso íntimo transformado, caracterizado pela verdadeira pureza de intenções, de sentimentos.
Hoje, mais que nunca, tendo em vista a nossa redenção que se faz necessária, é preciso que alcancemos essa Divina Porta!

E, mais que a Porta, Jesus, sabemos, é o Caminho, é a Verdade, é a Vida.
Jesus é o melhor Modelo de que dispomos, na Terra, a ser seguido.

Sem dúvida, nossa redenção espiritual passa por conseguirmos atender ao convite do Divino Amigo e amarmos como Ele nos amou, buscando viver como Ele viveu.

Invariavelmente, só conseguiremos vida, vida em abundância, na assunção real dos ensinamentos do Mestre.

É por isso que Emmanuel alerta que não nos basta a ternura das ovelhas, para que  alcancemos os páramos celestiais: é necessário algo mais...

E esse algo tem nome: chama-se reforma íntima verdadeira.

A Doutrina Espírita, tão rica em ensinamentos, traz-nos as orientações que nos convidam a análises comportamentais e situacionais, propondo-nos a necessária mudança íntima, em que o livre arbítrio será respeitado em todos os momentos.

Observemos que, hoje, a nossa capacidade de amar, de perdoar, está limitada a uma escala, que é humana. Nessa escala, nós modulamos as nossas possibilidades, num gradiente pessoal, pois que depende do quanto cada um já pôde aprender e aquilatar em termos de valores morais.

O que Emmanuel assevera-nos, quando é taxativo ao afirmar que não nos basta a blandícia das ovelhas, é que é preciso que rompamos a barreira das nossas conquistas morais anteriores, para irmos além.

É necessário que saiamos do comodismo inercial, para sermos capazes de perdoar mais, de amarmos mais, de fazermos um pouco mais em prol de nós mesmos, dos nossos semelhantes e do mundo em que vivemos.

Pois foi o Mestre mesmo quem nos ensinou que, se nos pedissem para andarmos uma milha, que andássemos duas... (4)

Se a decisão de acertar não for renovada insistentemente, corremos o risco de, novamente, deixarmo-nos envolver pela cobiça; pelos prejuízos da sexualidade sem disciplina; pela maledicência; por toda a ordem de desvios morais.

E nos contaminarmos, outra vez, após termos decidido que, nesta encarnação, acertaríamos.

É a ausência de reflexão, de nos questionarmos se, verdadeiramente, esta ou aquela escolha vai nos fazer bem, que nos leva ao erro

Às vezes, um instante de insensatez vai nos exigir reconstruirmos muito do que construímos a duras penas, e, ainda assim, para alguns, a depender do erro cometido, uma vida inteira pode não ser suficiente para se refazer a própria trajetória, isso redundando em lamentável tempo desperdiçado.

A verdade é que, na Terra, ainda somos como flechas que, atiradas ao alvo, lamentavelmente nos desviamos.

É quando a pedagogia da vida utiliza-se do elemento chamado dor.

A dor, conquanto sempre passageira, vem e produz a necessária reflexão, convidando-nos às mudanças, porque, no limite, o sofrimento moral torna-se insuportável, já que traz, com ele, o remorso e a culpa, esse verdugo impiedoso.
Então, dessa sensação de negação de nós mesmos que o sofrimento moral provoca provem a reconexão com o caminho, com o alvo.

E porque, sob todos os matizes, Deus é amor, o sofrimento moral leva-nos também a buscarmos a porta de salvação das nossas dores.

E, como vimos, a Porta é sempre Jesus.

Para alcançarmos o pórtico da nossa própria redenção, enunciado há mais de dois milênios pelo Divino Emissário, o que precisamos, verdadeiramente, é nos comprometermos em não cometermos os mesmos erros de hoje, amanhã.

Precisamos nos comprometer com a nossa transformação moral.

Não apenas brandura no falar, mas afabilidade no pensar;
Não só blandícia ao se posicionar, mas ternura no querer;
Não só calma no transparecer, mas amorosidade no, efetivamente, ser.

Para alcançarmos a Porta, o Caminho, a Verdade, a Vida a que nos convida Jesus, é necessário muito esforço e transformação. Nas pequeninas como nas grandes coisas.

Publicado no Reformador de mar2017  http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/
Referências:

1     XAVIER, Francisco Cândido (Pelo Espírito Emmanuel). Pão Nosso. Brasília: FEB. 6ª. ed. 2014, p. 243.

2     João, 10:7

)      João, 10:9

       4- Mateus, 5: 41

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A PRECE NOSSA DE CADA DIA



Por Warwick Mota


Vamos falar da prece. Orar a Deus é “pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em
comunicação com ele”[1]. Nesse sentido, demos levar em conta três aspectos: oramos para louvar, para pedir ou, finalmente, para agradecer.

A prece é um pilar, por meio do qual obtemos o concurso dos bons espíritos. Toda prece é um apelo da alma, em ligação instantânea com o plano espiritual, segundo os princípios de afinidade que estabelecemos para que isso aconteça.

A prece é o elo que unirá a vontade-apelo à vontade-aceitação, levando em conta o nosso mérito e a capacidade que temos de receber. Ou seja: a prece, qualquer que seja ela, é uma ação, provocando outra ação, que à primeira corresponde.

Essa oportunidade de estar em contato com os bons espíritos, que é a prece, faz com que o homem desenvolva a força moral necessária para vencer as dificuldades que impedem o seu crescimento espiritual, ou desenvolva a força de que necessita, para voltar ao caminho certo[2].

O hábito da prece permite a aproximação com a Espiritualidade, e isso traz, consigo, modificações aos cenários da existência, porque também traz mudanças nas posturas que assumimos na vida.

É certo que nem sempre a prece vai resolver os problemas do nosso cotidiano, mas, com certeza, por meio da oração, vamos haurir a energia que vai nos ajudar a superarmos as dificuldades.

No momento em que elevamos verdadeiramente o pensamento ao plano mais alto, conseguimos estabelecer a melhor sintonia. E, aprofundando a questão, vemos que: “(...) Na prece encontramos a produção avançada de elementos-força. Eles chegam da Providência em quantidade igual para todos os que se dêem ao trabalho divino da intercessão, mas cada Espírito tem uma capacidade diferente para receber”[3].

No pensamento está o fulcro principal da prece, posto que a mente elevada, a fé verdadeira, é vida em movimento. Assim sendo, ao orarmos, não há receita. Não há fórmula miraculosa para a prece.

Portanto, não precisamos fazer cópias de preces, nem tentar um palavreado inútil, cheio de um balbuciar de lábios, valorizando mais as palavras que os pensamentos...

Uma qualidade que deve ter a prece é que ela, para ter sentido, tem de ser inteligível. Não adianta, na hora da prece, elaborar-se um discurso, com muitas palavras rebuscadas, se esse mesmo discurso for vazio de sentimento, ou se as pessoas que estiverem em comunhão, naquele momento, não conseguirem entender o que se diz. Ou seja: também para a hora da prece, necessária a simplicidade, a pureza de coração.

Paulo de Tarso diz: “Se eu ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim”[4].

A prece dispensa a fraseologia inútil, devendo ser simples, inteligível, clara. Isso porque a própria estrutura verbal que se coloca, num diálogo com alguém, ao se expressar, afasta ou aproxima as pessoas. E, se eu me expresso de maneira rebuscada, as pessoas encontrarão mais dificuldade de se aproximarem de mim! Assim também com a prece. Como vou conseguir, no caso de uma prece feita em conjunto, que as pessoas se unam à rogativa, se elas não compreendem o que digo?!

O que temos aprendido com a Doutrina Espírita é que a prece não deve ser recitada, mas sentida. Que deve haver recolhimento, um retorno da mente a Deus.

E, no momento em que nós formos orar, não devemos nos expor em evidência, mas devemos orar em secreto. Lembrando, aqui, que secreto não é escondido: secreto apresenta um sentido de recolhimento, de respeito a Deus. É um estado de recolhimento íntimo.

Vejamos: quando conversamos com alguém, com quem nos identificamos, abrimos nosso coração.

Ora, em sendo assim, com Deus, ainda mais! Se estamos conversando com Deus, essa conversa tem de ser o mais simples possível, a fim de que haja uma aproximação, porque a prece, na verdade, deve ser uma conversa que entretemos com Deus.

Se estou conversando com Deus, é uma conversa entre Pai e filho. Haverá de ser uma conversa franca, onde quem ora deve também conhecer os próprios limites, deve aprender a atender e a obedecer à vontade do Pai Celestial.

Porque isso que Jesus questionou a postura daqueles que oravam em praça pública, aos altos brados, e orientou aos discípulos que não se comportassem como os que oravam em praça pública, para serem, assim, vistos...[5]

Não será pela multiplicidade de palavras que seremos atendidos, nem pela suposta elaboração da prece.

Pensemos em nossos filhos: a todos os momentos, eles nos pedem uma série de coisas, mas nem sempre vamos lhes dar o que pedem; daremos, sim, o que necessitam, pois nem sempre eles nos pedem o que realmente precisam. Guardando as devidas proporções, Deus também age assim conosco.

O que deve sempre haver é a certeza de que, ao orarmos, vamos obter forças para superar as dificuldades.

Aprendemos que de nada depende a prece e, portanto, podemos orar em qualquer parte, a qualquer hora, em todos os momentos.

Em instantes de desequilíbrio, a prece, então, é fundamental para nos reencontrarmos. Secretamente vamos nos aprofundar nos escaninhos da nossa alma, penetrar dentro de nós mesmos, para percebermos o que realmente vai ser bom para nós e, daí, pedirmos o que precisamos, para suplantarmos as dificuldades.

Orar é fundamental.

“(...) Toda prece elevada é manancial de magnetismo criador e vivificante e toda criatura que cultiva a oração, com o devido equilíbrio do sentimento, transforma-se, gradativamente, em foco irradiante de energia da Divindade.”[6]

Se a prece é elaborada no nosso coração com bom sentimento, com louvor a Deus, com respeito a Ele, com fé, certamente será uma prece vertical, que será levada à Espiritualidade superior, movida pela mola propulsora dos nossos bons sentimentos.

A oração é o mais eficiente antídoto contra as obsessões. Antídoto fantástico, que os espíritos permitem que utilizemos, pela força da vontade e pela força da fé.

Publicado na RIE, fev/2017

https://www.oclarim.org/oclarim/materias/5101/revista/2017/Fevereiro/a-prece-nossa-de-cada-dia.html



1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 83. ed.. Parte terceira – cap. II, questão 659, p. 319. Rio de Janeiro: FEB, 2002.

2. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 131. ed. – cap. XXVII – item 11, p. 315. Brasília: FEB, 2013.

3. XAVIER, Francisco Cândido. Os Mensageiros. Pelo Espírito André Luiz. 45. ed. p. 156. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

4. I Coríntios, 14:11

5. Mateus, 6:5

6. XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz. Pelo Espírito André Luiz. 43. ed. p 84. Rio de Janeiro: FEB, 2011

ECOLOGIA E ESPIRITISMO

Por Warwick Mota    Vivenciamos na atualidade o limiar de uma grande transição: eventos sociais e físicos eclodem em todo o planeta demonstr...